13 de out de 2007

JUSTIÇA DO OUTRO MUNDO

Em casos dramáticos – e polêmicos –, mensagens psicografadas pelo médium Chico Xavier foram aceitas como provas judiciais e livraram os réus da cadeia. Mas, afinal, esse é um recurso válido ou não?

Por Giovana Sanchez
Edição: Lauro Henriques Jr.

É 8 de maio de 1976, dia das mães. Maurício Garcez Henrique, de 15 anos, vai visitar o amigo de infância, José Divino Gomes, de 19, que mora na mesma rua, na cidade de Goiânia de Campina, em Goiás. Os dois conversam na sala da casa, quando Maurício pede um cigarro e o amigo lhe diz para pegar o maço na cozinha. Lá, então, ele se depara com um revólver, do pai de José Divino. Maurício decide pegar a arma e, depois de descarregá-la, a leva para a sala, onde os dois começam a brincar de atirar. Em um dos disparos de José Divino, contudo, a brincadeira transforma-se em tragédia: a arma lança uma bala que atravessa o tórax de Maurício, que morre logo depois de chegar ao hospital.

José Divino é preso imediatamente. Em seu depoimento, ele tenta se defender, afirmando que não tivera a intenção de matar o amigo, que não sabia que a arma ainda estava carregada. Em vão: suas palavras não surtem efeito algum. Para a polícia, ele é um assassino, e ponto final. O mesmo se dá em relação à família de Mauricio, que está inconsolável – o pai, José Henrique Garcez, pensa até em vingar a morte do filho.

Tudo parecia indicar que essa história terminaria na condenação de José Divino, ou em um novo derramamento de sangue por vingança. E é quase certo que as coisas teriam se passado assim, não fosse pela aparição de um novo personagem nos acontecimentos: o espírito da própria vítima.

Testemunha tumular

O pai de Maurício ainda pensava em fazer justiça com as próprias mãos, mas, orientado por uma amiga adepta do Espiritismo, resolveu buscar consolo na doutrina. “Haviam me falado sobre as tais cartas psicografadas, com mensagens de pessoas falecidas, e decidi, junto com minha esposa, procurar o Chico Xavier, que na época já era reconhecido por seus méritos como médium”, diz José Garcez. Nos dois anos que se seguiram, o casal viajou cerca de duas vezes por mês a Uberaba, em Minas Gerais, onde vivia o médium. Nesses encontros com Chico Xavier, recebiam pequenas notas psicografadas de Maurício, que sempre dizia estar bem. Eram relatos confortadores, sim, mas estavam longe de causar o impacto que viria a seguir.

A data do julgamento já se aproximava quando, numa das costumeiras visitas ao médium mineiro, a família Garcez foi surpreendida por uma reveladora mensagem do filho: “Peço-lhes não recordar a minha vinda para cá, criando pensamentos tristes. O José Divino e nem ninguém teve culpa em meu caso. Brincávamos a respeito da possibilidade de se ferir alguém, pela imagem do espelho: e quando eu passava em frente da minha própria figura, refletida no espelho, sem que o momento fosse para qualquer movimento meu, o tiro me alcançou, sem que a culpa fosse do amigo (...) Se alguém deve pedir perdão, sou eu mesmo, porque não devia ter admitido brincar, ao invés de estudar”.

O recado não podia ser mais claro: o amigo era inocente. Na carta, o rapaz ainda deu detalhes da cena de sua morte. “Ele contou exatamente o que o amigo tinha narrado em seu depoimento, mas eu ainda relutava em aceitar a sua inocência”, diz José Garcez. “Na visita seguinte que fizemos a Chico Xavier, porém, Maurício se manifestou em outra carta. Dizia saber da minha dificuldade em admitir o fato, mas pediu novamente para que eu acreditasse em suas palavras”, relata José Garcez. Depois disso, além do perdão da família Garcez, José Divino ganhou a liberdade.

Incluídas nos autos do processo, as cartas psicografadas foram aceitas como provas da inocência do réu no julgamento presidido pelo juiz Orimar de Bastos, que inocentou José Divino em sentença proferida em julho de 1979.

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