28 de jan de 2009

O MENINO CHICO XAVIER E A FERIDA

Chico Xavier foi criado em meio a preces. Quando ele tinha dois anos, Maria João de Deus, sua mãe, já apontava o céu estrelado e dizia: Foi Deus quem fez tudo isso. Às vezes, exibia um retrato de Jesus e alertava: A maior ofensa que podemos fazer à nossa consciência é negar a existência de Deus. A mãe reunia os filhos para a oração da noite, confessava aos sábados, comungava aos domingos. Já na casa da madrinha, as rezas eram raras e as surras, fartas. Numa delas, Rita se empolgou e enfiou com força demais o garfo na barriga do afilhado. A ferida demorou a cicatrizar e, para evitar o atrito da pele com a roupa, a madrinha obrigou o menino a usar uma espécie de camisola conhecida como mandrião, vestida por meninas e confeccionada com tecido de ensacar farinha. Os vizinhos se divertiram com a fantasia.

O menino não conseguia achar graça. Chorava muito e só tinha sossego quando a madrinha tomava o rumo da estação para ver o trem de luxo passar. Ela adorava admirar os passageiros da primeira classe. Numa das escapadelas de Rita, Chico correu para o quintal e se ajoelhou embaixo de uma bananeira. Repetia o pai-nosso quando, de repente, viu na sua frente Maria João de Deus. Até que enfim. Ela cumpriu o prometido. Adeus surras e garfos. Chico se agarrou à recém-chegada e pediu socorro. "Carregue-me com a senhora, não me deixe aqui, eu estou apanhando muito". A aparição desfez as ilusões do desesperado. "Tenha paciência. Quem não sofre não aprende a lutar. Se você parar de reclamar e tiver paciência, Jesus ajudará para que estejamos sempre juntos". Em seguida, evaporou. Chico ficou ali, no quintal, sozinho, gritando pela mãe.

Daquele dia em diante, apanhou calado, sem chorar, para desespero da madrinha, que adotou um novo grito de guerra: Além de louco, é cínico. O menino se defendia da acusação com um argumento absurdo. Toda vez que suportava as surras em silêncio, com paciência, via sua mãe. A vara de marmelo zunia, Chico engolia o choro e depois se refugiava no quintal para ouvir os surrados conselhos maternos: era preciso sofrer resignado, era fundamental obedecer sempre, porque logo um anjo bom apareceria para ajudá-lo. O menino ficava esperando.

Numa tarde, a "educadora" Rita de Cássia brindou o aluno com uma prova surpresa. Moacir, primo de Chico, apareceu com uma ferida na perna esquerda, que não cicatrizava. A madrinha, preocupada com o sobrinho, mandou chamar dona Ana Batista, uma benzedeira de Matuto, hoje Santo Antônio da Barra, cidade vizinha de Pedro Leopoldo. A curandeira examinou o ferimento e aviou a receita. Só uma simpatia daria jeito. Uma criança deve lamber a ferida três sextas-feiras seguidas, pela manhã, em jejum. "Chico serve?" perguntou a madrinha.

O garoto ficou em pânico. Correu para debaixo das bananeiras e ouviu o repetido conselho materno: "Você é uma criança e não deve contrariar sua madrinha". "E isso vai curar o Moacir?", perguntou o menino. "Não, porque não é remédio. Mas dará bom resultado para você, porque a obediência acalmará sua madrinha".

Chico perdeu a paciência. Por que sua mãe não voltava para casa? Onde estava o tal anjo bom? A aparição acalmou o menino: "Seja humilde. Se você lamber a ferida, faremos o remédio para curá-la". No dia seguinte, pela manhã e em jejum, Chico iniciou a missão. Fechava os olhos, pedia forças à mãe e lambia a perna do garoto. O gosto era amargo e ele só queria ter a língua maior para acabar logo com o suplício. Na terceira sexta-feira, o ferimento estava cicatrizado. Pela primeira vez, Rita de Cássia elogiou o afilhado: "Muito bem, Chico. Você obedeceu direitinho. Louvado seja Deus". O menino não sabia, mas passaria a vida lambendo feridas alheias.

Trecho do livro "As Vidas de Chico Xavier", Marcel Souto Maior

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