26 de abr de 2009

EXERCITE SEU DESPREZO; OU FAÇA DIFERENTE

A cena poderia ter ocorrido em qualquer um desses programas de domingo da tv brasileira, ou mesmo num evento beneficente da sociedade, nos quais nos comprazemos em acreditar que estamos ajudando "pobres coitados" que não tiveram "sorte na vida", "ignorantes" e obtusos, que dependem de nossa caridade, de nossa bondade; de nossa "superior" compaixão para com os que são "menos" que nós. Então imagine... A figura é de uma senhora risível, interiorana, de 48 anos; uma solteirona qualquer; desempregada, que vive apenas com seu gato e que jamais foi beijada. Poderia ser uma mulher aí de seu bairro, mas ela mora num vilarejo chamado West Lothian, na Escócia. Seu nome não é Maria de Lourdes, mas Susan Boyle (o que não faz muita diferença!) e decidiu interromper sua monótona rotina para tentar a sorte num conhecido programa de talentos da tv britânica, o "Britain's Got Talent".

Por sua aparência e seu andar a platéia logo sabe que será um momento de descontração. Afinal, está diante de um boneco de massa de modelar do filme "Fuga das Galinhas". Ao falar sua idade, as pessoas riem, os apresentadores se entre olham, como que dizendo: "Que perda de tempo!". Com uma timidez domada, Susan conta que sonha ser cantora profissional. Na platéia, uma espectadora adolescente olha para a amiga do lado com expressão de piedade. Na coxia, auxiliares riem dela, principalmente quando compara-se a Ellen Page e diz que pretende cantar "I Dreamed a Dream", do musical "Os Miseráveis". "Então tá...", diz um jurado com os olhos. A música começa e, nas primeiras frases, a platéia fica em pé. No palco, uma bela jurada se emociona, levanta-se a aplaude com lágrimas nos olhos, quase com sentimento de culpa por tê-la menosprezado. Diria depois: "Honestamente, penso que todos nós fomos cínicos com você".

A lição de Susan Boyle e de seu gato Pebbles mostra, nas palavras da jornalista Pam Belluck, do New York Times, o "quão superficiais estamos". Mas, depois que seu vídeo se tornou viral, vemos uma epidemia de comentários e análises de como estereotipamos as pessoas em categorias, como caímos vítima de preconceitos, como julgamos superficialmente. Há até mesmo cientistas buscando justificar, afirmando que "há motivos para avaliarmos rapidamente as pessoas". Para Susan Fiske, uma professora de psicologia e neurociência da Universidade de Princeton, "a atração é uma coisa que reforça o estereótipo e faz com que se cumpra".

Pessoas atraentes têm "crédito de serem socialmente hábeis", disse Fiske, e talvez sejam, porque "se uma pessoa é bonita ou simpática, as outras pessoas riem das piadas dela e interagem com ela de uma forma que facilita a interação social". Segundo ela, se a pessoa não é atraente, como Susan, "é mais difícil de conseguir as coisas". Isto explicaria o desprezo com que foi tratada ao tentar ser aceitável. Depois, tudo mudou, mas quero precisamente dizer que o fato de aceitarem o sucesso de Susan Boyle e dezenas de outros azarões dificilmente mudará nosso gosto pelo estereótipo.

A interiorana escocesa passará a ser lembrada como "a feia e desengonçada com um talento extraordinário". Passará a ser um fato distante, lembrado em roda de amigos apenas para criticar os outros e remeter ao velho discurso de como a sociedade é nociva e, por vezes, repugnante.

Mas, embora pareça distante, gostaria de imaginar os leitores buscando fazer um exercício simples: verificar o 'mea culpa' nessa relação. Veja quando se comportou de maneira semelhante a todos que acabou de criticar: talvez quando foi abordado por um desconhecido na rua; quando riu de um colega de classe ou de trabalho que julgava intelectualmente limitado; quando se pôs a falar mal de sua última faxineira ou mesmo de um político, que tachou de corrupto, sem sequer conhecer sua trajetória. Pensemos, enfim, que não somos melhores. Que pretendemos ser, mas que não somos melhores do que a média da população e que se há algo que nos tornará positivamente diferentes será tão-só nossa sinceridade em admitir. Pense nisto relendo o texto da bela canção cantada por Susan:

Sonhei um sonho
com o tempo já acabado
quando a esperança era alta
E viver valia a pena
(...)
Sonhei que Deus perdoaria
Que eu era jovem e destemido
Quando sonhos foram feitos
E usados e desperdiçados
Não houve resgate a ser pago
Nem canção não cantada
Ou vinho não provado
(...)
Como eles despedaçam sua esperança
Transformando seus sonhos em vergonha
E, ainda assim, sonhei que ele veio até mim
(...)
Eu tive um sonho
Que minha vida seria
Tão diferente deste inferno
Que estou vivendo
Tão diferente daquilo que parecia
E agora a vida

Matou o sonho
Que eu sonhei!

3 Comentários:

nbalike disse...

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Maria das Dores disse...

Conheci o espiritismo atavés de uma amiga, num momento muito difícil da minha vida qundo perdi minha filha Ana Claudia, desencarnou aos vinte e oito anos de idade, de uma cesariana do primeiro filho. A mesma estava no último ano de Faculdade de História, Fiquei arrasada e essa amiga me levou a um Centro E spírita em minha cidade,Imperatriz Maranhão procurei respostas para minhas perguntas.Hoje frequento, já li uns cinquentas livros espírits e encontrei consolo para minha alma.O desencarne ocorreu em 22/03 02.Parabéns pelo blog! Beijos...

Marlene Peres disse...

FOI DEUS QUE ME AJUDOU AENCONTRAR ESTE BLOG, APESAR DE LER MUITOS LIVROS ESPIRITAS, ELES TEM MIM AJUDADO MUITO EM RELAÇÃO AO CONFORTO PELA MORTE DAS MINHAS IRMAS, ESPERO QUE ALGUÉM TÃO ILUMINADO POR DEUS COMO VOCÊ, CHEIO DE AMO E CARINHO,POSSA ME AJUDAR POIS DESESO RECEBER ALGUMA NÓTICIA DO LAR CELESTIAL. ASSIM QUE CONHECI ESTE BLOG VI A POSSIBILIDADE DA COMUNICACÃO. ESTOU ANCIOSA NO AGUARDO DE NOTICIAS DAS MINHAS IRMÃS ÓNEDIA PERES DE OLIVEIRA E CRISTIANE PERES DE OLIVEIRA,QUE PARTIRAMUMA EM 28 DE JAREIRO 2006,AOS 5O ANOS,VITIMADA POR UM CÃNCER NO PULMÃO,E CRISTIANE PERES DE OLIVEIRA,VITIMA DE MINIGITE(BAIXA RESISTENCIA IMOLÓGICA-VIRUS HIV).SEREI A PESSOA MAIS FELIZ, SE RECEBER ALGUMA COISA DELAS, AGURDO FELIZ NA CERTEZA DA MENSAGEM. BEIJOS NO SEU CORAÇÃO.
(24/4/2009 11:18:50) - (IP: 10.254.34.250)

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