24 de set de 2009

HOJE ACORDEI PENSANDO EM MEU PAI

Hoje acordei pensando em meu pai. Não é todos os dias que a gente se lembra dos que já se foram; e de alguns, quando a gente lembra, não dá para falar, porque ainda dói muito. Mas um dia você acorda lembrando de alguém que significou muito na sua vida, mas que na época você não sabia, só foi saber depois.

Não sou muito de datas, mas durante anos lembrei do dia do seu aniversário, do dia de sua morte; o tempo foi passando e fui aos poucos me esquecendo desses dias. E pensando bem, lembrar dele no dia do seu aniversário, da sua morte, não tem nenhuma importância. Tanto não tem que hoje, que não tem nada a ver com essas datas, acordei lembrando muito dele.

Desde que éramos pequenas, volta e meia eu e minha irmã ouvíamos nosso pai falar, um pouco brincando, um pouco a sério: "vocês não me dão valor, não escutam o que eu digo, um dia vocês vão ver que eu tinha razão". É claro que entrava por um ouvido e saía pelo outro, e ele, felizmente, não percebia.

Talvez depois que as pessoas morrem tenhamos uma tendência a idealizá-las, e é exatamente o que sinto pelo meu pai. Mais do que uma questão de inteligência, ele teve, desde cedo, o dom de saber o que era a vida; sem ilusões, guardando mesmo assim um lado muito poético dentro dele. O que, aliás, nos confundia muito. Quando falava no amor, era de um lirismo total; quando ainda jovem, foi eleito Príncipe dos Poetas Capixabas, teve seus poemas publicados em Vitória, onde morávamos, e tinha até o físico de um poeta -um pouco no gênero Castro Alves. E nos dizia que por amor uma mulher deve fazer tudo, pois nada é mais importante na vida.

Mas veja como era complicado ser sua filha: logo que me casei, não existiam telefones no Rio. Ou você comprava -e era um bem que se declarava no Imposto de Renda- ou se conseguia por meio de pistolão. Como meu marido era dono de um jornal, não foi difícil conseguir um, e meu pai disse logo que o telefone tinha que ser no meu nome, pois se alguma coisa acontecesse, tipo o casamento não dar certo, o telefone seria meu. Ora, como compreender um pai com posições tão diferentes? Quando pedi que ele me explicasse como poderia me dar conselhos tão opostos, ele sem nenhuma paciência, disse "ah, mas será que vocês não entendem? Mas não faz mal, um dia vocês vão entender". Como ele tinha razão.

Era como se ele tivesse nascido sabendo onde a vida nos ia levar, como se tivesse o dom de prever o futuro; por experiência ou um dom muito especial e raro, sabia onde iríamos parar com nossas escolhas, nossos casamentos, nossos amores. E bem que tentou nos explicar como é a vida, mostrando que em circunstâncias exatamente iguais, uma hora se deve agir de um jeito, na outra de outro jeito, mas isso é difícil de explicar -e de entender. Talvez por saber demais, a vida para ele foi muito pesada.

Ah, meu pai sabia das coisas. O que eu não daria para sair hoje com ele para almoçar, comermos aquela moqueca de lagosta de que ele gostava tanto e falar de tudo que aconteceu em todos esses anos, depois que ele se foi.

Do quanto ele tinha razão em tudo que me dizia; que saudade de você, meu pai.

Folha de S. Paulo (20/09/2009)

8 Comentários:

tinaenei@hotmail.com disse...

também tive uma perda muito grande na minha vida. meu único filho desencarnou com apenas 11 anos de idade. ´ha exatamente 9 meses ainda esta sendo muito difícil para mim sem a precensa do meu amado filho perto de mim. mais eu peço todos os dias a deus que ele esteja bem.porque eu estando bem ele também vai estar.que os esp´ritos de luz ilumine o seu lar.um abraço de uma ma~e que um dia com certeza vou . encontrar com meu filho.

dionatan junior machado wagner disse...

fiquei enptrcionado com james e feliz ao mesmo tempo que deus te elumine no teu caminho de luz e comtinue trazendo paz para as pessoas e conforto
(29/9/2009 12:16:27)

Aline Palhari disse...

Depois da morte tenho vontade de saber pq a 1 ano meu avô faleceu ele era 1 pessoa querida sinto muitissima falta dele e estou ao ponto de perder meu tio outra pessoa querida...
(27/9/2009 16:30:16)

Gerhard disse...

Não tenho mais palavras para refletir sobre esse assunto...a Stella realmente foi uma pessoa muuuuito especial e tenho certeza que um dia vamos nos reencontrar. E foi meu grande amor.
(25/9/2009 23:41:22)

Sissa disse...

É minha amiga,como sempre se diz.A gente só da valor para as coisa depois que a perdemos,por isso Danuza,de valor as pessoas,e as pequenas coisas do nosso dia-a-dia,não fique se lamentando pelas grandes coisas,pois bens materias se vão,mas as pessoas que amamos,essa ficaram em nossas memorias para todo o smpre...Lembre-se sempre disso...Bjus..
(2/12/2009 20:10:27) sissa_fiona@hotmail.com)

Anônimo disse...

m inha amiga perdeu sua filha de 14 anos de repente,o brasiu inteiro soube da garots que levou um tiro dentro da sala de aula em cascavel .p.r,ela esta sofrendo muito ,ela dis sonhar muito com a filha,e as fotos que ela tem estao xeias de manxas,falarao a ela que porque ela xora muito .sera que e verdade;

Anônimo disse...

saudades de um grande amigo,um grande homem........MEU PAI

Anônimo disse...

Do que eu mais me arrependo é de não ter me aproximado do meu pai para dizer a ele "EU TE AMO PAI". Quando eu era mais jovem, ele não me dava muita chance de me aproximar, mas depois que ele se foi que eu pude perceber que tbem fui o culpado de não quebrar aquela barreira que existia entre nós

Postar um comentário

Deixe aqui seu recado ou depoimento, de forma anônima se preferir. Respeitamos a sua opinião, por isto recusaremos apenas as mensagens ofensivas e eventuais propagandas. Volte sempre!

2leep.com

Artigos mais lidos

  ©PARTIDA E CHEGADA - Todos os direitos reservados.

Template by Dicas Blogger | Topo