19 de out de 2009

DANIEL FILHO, MESTRE POR TRÁS DO FILME SOBRE CHICO XAVIER


É um momento forte da vida de Chico Xavier, reconstituído no filme que Daniel Filho finaliza nos estúdios de sua produtora. O jovem Chico, ainda em Pedro Leopoldo, tem a revelação da mediunidade. Sua irmã está amarrada na mesa da sala, possuída por um espírito. Um casal de espíritas tenta exorcizar a entidade que comanda a possessão. O pai, desesperado, prende os pés da filha, que se debate desesperadamente. Chico entra correndo na sala, montada no estúdio do Polo de Cinema de Paulínia. Liberta a irmã de suas amarras e a tranquiliza com o simples poder de persuasão da voz. A cena é forte e o elenco que a reconstitui é de feras. Ana Rosa, Anselmo Vasconcelos, Luis Melo, Larissa Vereza (filha de Carlos), Cléo Daniel (filha de Daniel Filho) e Ângelo Antônio, um dos três atores que se revezam no papel de Chico. Se a dramaturgia é intensa, o desafio técnico não é menor. Daniel Filho filma com duas câmeras. Uma grua, e a câmera baixa em direção ao rosto da exorcizada, descrevendo um movimento circular que a faz rodar em torno dos personagens; e outra câmera que se move sobre trilhos, no solo, captando a cena do ângulo lateral. Daniel Filho ensaia várias vezes. Troca as lentes, corrige o tempo do movimento.

Daniel Filho não gosta de repetir os planos. Só mesmo por necessidade, quando houve alguma falha técnica. Ele busca sempre a emoção da cena recém-descoberta pelo ator. Seu método costuma dar certo. "É um épico, é o meu El Cid", ele brinca, referindo-se ao clássico de Anthony Mann com Charlton Heston. Daniel conheceu o biografado. Seria somente o produtor de Chico Xavier. Convidou vários diretores. Um deles, Cláudio Torres, viajou na maionese e construiu o que mais parecia uma ficção científica. Veio de Rodrigo Saturnino Braga, da empresa produtora e distribuidora Sony, a pressão para que Daniel Filho assumisse a direção. "O Saturnino chegou a invocar o Vanucci." Antônio César Vanucci foi uma figura histórica da TV brasileira - ‘Meu irmão’, como o define Daniel. Vanucci era espírita.

"Quando ele vinha falar com a gente, Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) e eu já sabíamos que íamos terminar fazendo algum programa de inspiração espírita na Globo", lembra Daniel. Saturnino o convenceu a fazer Chico Xavier, ‘pelo Vanucci’. Ao chegar em casa, decisão tomada, o diretor conta que viveu uma experiência irracional ou transcendental, deem o nome que quiserem. "Fui contar a Olivia - sua mulher, Olivia Byington - e as lágrimas não paravam de escorrer. Estava falando, estava feliz e as lágrimas desciam numa enxurrada."

O roteiro creditado a Marcos Bernstein, de Central do Brasil, bebe em várias fontes, incluindo a biografia de Marcel Souto Maior. Teve nove versões. Daniel explica que a estrutura episódica conta três fases da vida de Chico Xavier por meio de experiências decisivas que viveu na infância e já adulto, em Pedro Leopoldo, e depois em Uberaba, onde se radicou. O garoto Matheus Costa e, depois, Ângelo Antônio e Nelson Xavier vivem as diferentes fases do médium. O roteiro possibilita a realização de um filme de quase três horas, mas pela estrutura flexível, Daniel espera deixar a versão para cinema com cerca de duas horas.

Haverá outra, mais extensa, para TV, para ser exibida como microssérie. Por contrato, a estreia será em 2 de abril de 2010, dia do centenário de nascimento de Chico Xavier. Coincidentemente, será Sexta-Feira Santa. Pode-se estar desenhando mais um grande êxito do cinema brasileiro.

O diretor pediu - e obteve - a aprovação de familiares de Chico Xavier, mas não precisava, porque tem os direitos do livro. Desde que começou a trabalhar no projeto, Daniel Filho conta que ouviu 1.001 histórias sobre o médium e sobre a força do espiritismo. O que o atrai nele é seu imenso coração. Não é um filme de militante espírita, pois Daniel se autodefine como ateu. Crê numa energia superior, não em Deus. Crê no homem, apesar de tudo. Mas ele quis que alguns atores, pelo menos, fossem espíritas. Daniel Filho investigou até o aspecto mais polêmico - a suposta homossexualidade do médium. "Perguntei para todo mundo. Ele não era homossexual. Era assexuado." O ator Ângelo Antônio explica: "Um amigo dele me disse que Chico tinha a delicadeza de uma menina. É assim que o interpreto, feminino. Sua bondade é uma inspiração."

Fotos: Ique Esteves (Divulgação)

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