6 de nov de 2009

O SILÊNCIO DE DEUS

Entre os livros que tenho, alguns me acompanham há muitos anos. Minha geração não conheceu presente melhor de oferecer a crianças e adultos, fossem eles parentes ou amigos. Todos, indistintamente, ganhavam livros no aniversário e no Natal, substituindo rosas e chocolates, que os mais velhos normalmente ofereciam às senhoras e senhoritas de então. Chegamos mesmo a criar uma frase que circulou por muito tempo no meio em que vivíamos: "Livro – melhor que flores, pois não morre. Melhor que bombons, pois não engorda". Aqui, de onde estou, sentado à mesa de trabalho, vejo meus livros na estante. Levanto-me, pego três deles ao acaso: uma edição do teatro completo de Gogol, que o meu querido amigo Flávio Rangel me deu, com dedicatória carinhosa, em 1956. Há 53 anos, portanto. Outro, poesia completa de Rimbaud, numa edição da Gallimard, presente de outro amigo inesquecível, o Bento Prado Jr., de 1960. E uma publicação, em espanhol, do teatro de O’Neill, presente de outro querido amigo, o Antunes Filho. Vou até outro volume, encadernado, e fico com ele entre as mãos, revivendo todo o prazer que senti quando o li pela primeira vez, e que continuei sentindo nas muitas vezes em que o reli.

Chama-se "O Silêncio de Deus", que a Editora Flamboyant lançou em 1958. Na primeira página escrevi: "Feira do Livro. Praça Nossa Senhora da Paz. Ipanema. 1972". Lembro que foi numa tarde ensolarada, em que eu e alguns amigos almoçamos numa churrascaria que existia por ali, frequentada por artistas – músicos, principalmente –, de nome A Carreta, se não me engano. Trata-se de uma antologia de textos e notas biográficas de grandes nomes da literatura do século XX: Albert Camus, André Gide, Aldous Huxley, Simone Weil, Julien Green e Bernanos. Nós, que tanto proclamamos a existência ou a inexistência de Deus e do divino, sentimos de repente, ao folhear essas páginas, que Deus fala ao não falar. Que Ele se manifesta e se faz visível ao ocultar-se. Que é na escuridão que Ele brilha e ilumina. Recolho nele, para meus possíveis leitores, algumas reflexões enriquecedoras sobre o silêncio de Deus, todas elas de Julien Green (1900-1998).

"É no silêncio que Deus habita. Lá é a sua morada. E não no vento, nem no tremor de terra, nem no ruído de palavras que fazemos continuamente, mas no íntimo de nós mesmos, lá onde já não alcançam as vozes do mundo."

"Há pessoas que deixam de repente de acreditar em Deus. Quanto a mim, vou-me apercebendo de que deixo de acreditar na humanidade."

"Que sabemos nós de Deus, do que ele quer, do que ele pensa? As civilizações desaparecem umas após outras e Ele guarda silêncio."

"O maior explorador desta terra não faz tão longas viagens quanto aquele que desce ao fundo do próprio coração e se debruça sobre os abismos onde a face de Deus se contempla entre as estrelas."

"Nós vivemos como ateus. Deus morre de frio, bate a todas as portas, mas ninguém lhe abre jamais. O lugar está ocupado. Por quem? Por nós mesmos."

"Um jovem internado num hospital diz a um religioso: ‘Eu não quero conversar comigo mesmo e imaginar que é Deus que me fala. Deus não fala. Há o silêncio de Deus!’"

Para os leitores desta página que se interessarem pela visão e vivência que esses escritores tiveram de Deus e do cristianismo, a sugestão é que procurem num sebo por esse livro extraordinário, que dei de presente a mim mesmo, numa tarde de sol, em Ipanema.

1 Comentário:

Barreto disse...

Deus nao é para ser entendido, como uma ciência natural, é para ser percebido como o Grande Pai sensato e amoroso.

Estou recomendando seu blog pelo meu blog. Formemos uma corrente de amor.

Barreto

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