24 de dez de 2009

CRÔNICA DE NATAL : 'A MEMÓRIA FICA'

Meu avô Paiva comprou uma fazenda rústica em Eldorado Paulista, cidade fundada por garimpeiros, às margens do Rio Ribeira. No começo, para chegar lá, só de canoa.

Seguiam de trem até o Vale do Ribeira. Lá, subiam o rio num barco que mais parecia uma balsa, daqueles que cruzavam o Rio Mississipi.

Minha avó, com seis filhos pequenos, da elite de Sorocaba, não se conformava com o risco que corriam. Mesmo assim, meu avô teimou: era uma região primitiva, de florestas intactas, montanhas e rios limpos, plantações de banana e pouco povoada.

Meu pai e meus cinco tios passaram a infância lá. Pouco a pouco, o progresso chegou. Asfaltaram a BR 116 até Curitiba. Para chegar à fazenda de carro, pegávamos então uma estrada de terra em Jacupiranga, que hoje está asfaltada.

A modesta casa de pau-a-pique cresceu. Virou um casarão com muitos quartos. Ganhou piscina e um lago represado barrento, em que vivia um jacaré, dizia-se. Boato só revelado recentemente. Era para que as crianças não se arriscassem muito e não nadassem até a margem oposta.

O problema foi que fugir do jacaré mitológico passou a ser uma espécie de batismo e desafio da molecada. Cruzávamos o lago temendo o pior, chegávamos a outra margem e voltávamos a jato, com medo de sermos mordidos nos pés, apenas para provarmos o quanto fortes e corajosos éramos.

A família cresceu. Ao todo, dávamos 23 netos, com pouca diferença de idade, em que me incluo. A maioria foi batizada na pequena capela construída anexo. Nesse paraíso distante, passei a infância e adolescência, como meu pai.

Não havia telefone, TV. De dia, a criançada se entretinha na piscina, no lago, nas areias de praia do rio gelado e de águas transparentes, andava a cavalo pelas matas intactas, tocava a boiada com os vaqueiros. Ficávamos soltos. Com cada pequeno vigiando outro. Eventualmente, alguém rolava uma cachoeira. Só então um adulto era requisitado, para levaro ferido ao hospital mais perto - Iguape, 8o quilómetros.

Às noites, os adultos iam para a sala de estar do meu avô, com poltronas de couro, tapetes chineses, lareira. Só maiores de quatorze anos tinham a permissão de entrar lá. Quando os netos começaram a fazer quatorze anos, a regra mudou. Só maiores de dezoito teriam então o privilégio de testemunhara noitada dos adultos.

Nos restava o terraço de jogos. Lá, as brincadeiras de salão eram organizadas pelas tias e primos mais animados e criativos. Fazíamos coral com músicas da Jovem Guarda. Peças de teatro, em que representávamos histórias e tendas da família. Jogos de adivinhação. E cedo íamos para a cama para, antes do sol nascer, bebermos leite diretamente da vaca na cocheira ao lado.

A cidade de Eldorado ficava a 2 quilómetros. Animados, percorríamos a pé, todos os primos, cantando, sorvetes, um role pela praça central, visitar amigos, comprar varas de pescar e quem sabe arriscar uma sessão no único cinema da região. Procissões em feriados religiosos, não perdíamos uma. E arriscávamos nos misturar entre os campos de pelada.

Era a rotina dos três meses de férias de verão, que ganhávamos de presente. Nem todos os pais ficavam conosco. Deixavam a molecada lá, sob o comando da minha avó, sempre a mais animada e brincalhona, esóapareciam no Natal.

Então, a grande festa era organizada. Apenas no Natal era permitida a entrada de toda a criançada na misteriosa e imponente sala. Contávamos os dias com ansiedade. Vestíamos a melhor roupa. Abriam-se as portas e, solenemente, entrávamos, finalmente, naquele templo sagrado, em que os adultos passavam as noites debatendo sobre os mistérios dos negócios e da vida.

Num piano de cauda, eles se revezavam: Chopin, Beethoven, marchinhas de carnaval, choros. Bossa Nova? Não, muito ousada. Só minhas primas mais velhas tocavam no violão, que aprendiam nas férias com o professor e único músico de Eldorado, por quem todas eram apaixonadas. Cada um exibia o seu dote e, claro, rolava o Bife -música infantil que todos sabiam tocar. Muitas mãozinhas apertavam juntas aquelas teclas. Revezavam-se. Batucavam. O grande momento era enfim, abrirmos os presentes. Embrulhados e secretos, ao redor de um pinheiro plantado na própria fazenda. Brinquedos chineses, alemães, caros, sofisticados. Cada tio trazia mais de 30 presentes na vinda. Cada neto ganhava um presente pensado e escolhido apenas para ele. Não repetiam os mimos. No meu caso, como haviam seis primos da mesma idade, os brinquedos eram semelhantes aos dos outros, mas cada um, personalizado. Que vidão.

Para mim, toda criança tinha direito a uma vida como aquela. Não sei como alguém é capaz de aprender, sobreviver e trocar experiências, gerar filhos, ter paz espiritual, ser completo e virtuoso se nãovivenciou uma rotina no campo com muitos primos, abraçado por sua família, mimado e seguro, sem cruzar a névoa matinal de um vale, sem contar estrelas cadentes, sem sentir na pele as águas geladas de um rio ou os pêlos de um cavalo entre as pernas. Teria sido eu, uma das crianças maisfelizesdetodas?

Porém, a cortina se abriu, e começou o terceiro ato do espetáculo do destino. Meu pai, meu tio mais velho e meu avô morreram no mesmo ano. Um terremoto abriu uma fenda em nossos corações. O sentido de tudo se modificou. Perguntamos o que alimentou uma vingança caprichada e cruel. O que fez os deuses da felicidade se voltarem contra nós.

A família entrou em crise financeira. Os bens começaram a ser vendidos. Agrama deixou de seraparada. O gado morreu doente. O rio ficou poluído. A areia de suas praias, vendidas para a construção do progresso. E por fim, ousaram vender aquela fazenda tão fundamental paraavidadecadaum.

Intrusos viveram nela. Modificaram a sua essência e até as cores das paredes. Chegou a televisão, o telefone, a internet na região. Até uma pequena favela foi levantada na outra margem do rio.

No entanto, o céu é o mesmo. As montanhas ainda estão cobertas pela mata densa. O professor de violão ainda mora lá. Não deve ter tantas apaixonadas como antes, e deve ensinar também Renato Russo e Cazuza. E a memória fica. Não existe força do universo que a elimine. Memória igual a alma. É pura, transparente e imortal. Não se apaga. Lembrar não tem preço.

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