11 de dez de 2009

NINGUÉM AMA TANTO A VIDA QUANTO UM VELHO

Gosto de alguns livros assim como gosto de algumas pessoas. Com vontade de estar sempre ao lado, de pegar, de passar a mão, de abraçar e beijar. E nem são, na maioria das vezes, os livros mais importantes que eu li. Dos grandes autores do mundo. Ou dos clássicos. Não. Vou citar um, que eu tenho certeza de que é pouco conhecido do grande público. Quem sabe, assim, ele seja descoberto, como aconteceu com a antologia O Silêncio de Deus, que mencionei numa crônica neste espaço e atraiu a atenção de inúmeros leitores, todos à procura do livro.

Eu me refiro a Memória e Sociedade, da escritora Ecléa Bosi, da Universidade de São Paulo. Tenho a primeira edição, de 1979, mas existe uma mais recente, da Companhia das Letras, que pode ser encontrada nas livrarias.

Memória e Sociedade tem um subtítulo: Lembranças de Velhos. E o livro é isso mesmo. Além de grande parte do volume nos informar filosófica e psicologicamente sobre a memória, ele reúne depoimentos de pessoas velhas, como são chamadas pela autora e pelos próprios entrevistados. Velho, pra mim, é mais forte, mais verdadeiro, mais bonito, inclusive, do que idoso e pessoa da terceira idade. Não gosto dessas fantasias com que vestem algumas palavras, imaginando que fiquem mais bonitas e respeitosas. Quero ser visto como um velho homem e não como um idoso ou, pior ainda, uma pessoa da terceira idade.

Reproduzo alguns pequenos fragmentos desses depoimentos, aguçando a curiosidade de vocês.

De uma velha de 90 anos, filha de empregada doméstica, em São Paulo, e ela mesma nessa função durante toda a vida. Falando da sua origem humilde, ela conta:

– A pessoa sendo simples, mas tendo sua casa e tendo pai, é outra coisa. Eu não tive pai nem irmãos. A vida era de muito sacrifício. Pagávamos dez mil-réis por um quartinho de telhas-vãs (telhas soltas, não fixadas). Uma noite uma vizinha precisou dormir conosco e chovia forte. Ouvimos o barulho de alguém que comia no escuro e minha mãe perguntou: o que você está comendo, Mariazinha? E ela respondeu: estou mastigando as pedrinhas de gelo que caem na minha cama.

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Outra velha, em seu depoimento, lembra da sua vida em família, quando jovem. Leiam que linda recordação:

– Meu pai tinha o culto da inteligência e do caráter. Dizia: nobreza só admito uma, a do talento. Lia muito e queria que lêssemos. Foram os irmãos mais velhos que nos prepararam para a Escola Normal. Papai criou um ambiente onde só havia uma obrigação: estudar. Roupa era só o necessário para andar vestido. Nossos pais tinham a vida deles, nós a nossa. Cada um vivia muito sua vida, voltado para o estudo. Não se saía de casa sozinho. Um irmão sempre tinha de acompanhar outro.

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E um terceiro e último fragmento:

– Nossa casa era de tijolinhos vermelhos e seis janelas. As janelinhas do porão eram mais altas que a rua. A casa marcou nossa vida de tal forma que até hoje, em todo sonho e pesadelo que eu tenha, volto para lá. A casa foi demolida. Um pouco antes, ainda entrei nela. Não subi, mas estive no porão. O que será que procuro lá?

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Espero que essas pequenas lembranças de velhos despertem interesse e levem vocês até uma livraria. Quanto a mim, já li e reli esse livro várias vezes e essas histórias me encantam e me emocionam.

Há muitas reflexões sobre a velhice. Talvez até mais do que sobre a infância e a mocidade. Isso, muito provavelmente, porque essas reflexões são feitas pelos velhos. De todas as que conheço, gosto muito de uma que deixo aqui para vocês. É de Sófocles, quase 500 anos antes de Cristo: "Ninguém ama tanto a vida como o homem que está envelhecendo".

Manoel Carlos
A partir da Veja Rio. Leia no original

Imagem: Flickr. Autor :
Zarko

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