24 de mar de 2010

CHICO XAVIER E A ALMA DO BRASIL - Parte 2

Oito anos depois de sua morte, o mito do médium mineiro está vivo, forte e será renovado por uma onda de filmes que celebram o centenário de seu nascimento. O que explica essa popularidade?
Felipe Varanda
HOMENAGEM
O professor Adaílton Oliveira no túmulo de Chico em Uberaba. Mesmo quem não é espírita, como ele, cultiva a memória do médium

Por que o mito Chico Xavier só cresce, mesmo depois de sua morte? Por si só, o espiritismo gera curiosidade, mesmo entre não adeptos. Organizada no século XIX pelo francês Allan Kardec, a doutrina afirma que o espírito segue uma linha evolutiva através de sucessivas reencarnações. A vida na Terra seria um aprendizado para a eternidade. O espiritismo também é uma religião que não impõe obrigações nem lista pecados. O que se faz em vida é o que se leva dela para as próximas existências. Com Chico Xavier, “porta-voz do além”, como era chamado, o mundo da morte – maior mistério da vida – nunca pareceu tão próximo, tão claro e, de certa forma, confortável. A ideia de que a vida não acaba de fato, de que há alguma coisa do lado de lá, acalmou corações e arrebatou almas vivas. Com as cartas que dizia escrever em nome dos espíritos, Chico não só demonstrava aos olhos dos crentes a continuidade da existência, como oferecia uma forma de comunicação direta com o mundo dos mortos. O fascínio que essa ousada proposição exerce sobre a mente humana, atormentada pela finitude, não pode ser subestimado. Mesmo os gregos, cuja imaginação mitológica parece não ter tido limites, foram incapazes de supor a comunicação com o mundo subterrâneo. Pensavam que os mortos chegariam à margem do Rio Aqueronte, dariam um óbolo ao barqueiro Caronte, cruzariam para o Hades e nunca mais seriam vistos. Ou ouvidos. Viveriam apenas na memória dos vivos. E esses na dor inconsolável.
Ao atrevimento teológico do espiritismo, Chico somou algo que parece ser uma das características persistentes da cultura brasileira, o sincretismo
Ao atrevimento de invocar os mortos, Chico somou algo que parece ser uma das características mais persistentes da grande cultura brasileira: o sincretismo. Ao adotar o modelo monástico de obediência, pobreza e castidade, ele promoveu a aproximação entre a fé espírita e os preceitos católicos. Com isso, afastou o espiritismo do mundo dos demônios, tranquilizou os adeptos, abafou confrontos com a Igreja e – acima de tudo – criou para o espiritismo um amplo espaço de crescimento em um país profundamente identificado com a mensagem de tolerância e caridade do cristianismo. A intuição e a inteligência de Chico na construção de sua doutrina – e na prática de sua existência – ajudam a explicar o crescimento de seu prestígio mesmo agora, oito anos depois de sua morte. É o que diz a autora da tese Espiritismo à brasileira, a antropóloga Sandra Stoll, da Universidade Federal do Paraná. “A santificação pós-morte de Chico Xavier é uma prática corrente nos meios populares e não briga com a modernidade”, afirma. “As religiões se renovam, incorporando ideias, valores, símbolos e tecnologias e atendem a demandas modernas de diversos modos. O culto a Chico Xavier se insere aí.” 

O interesse pelo médium ultrapassa as fronteiras. Neste ano, um volume de 50 obras suas está sendo lançado em russo. A curiosidade em torno de Chico Xavier está levando aos Estados Unidos um de seus biógrafos, Carlos Antônio Baccelli. Autor do recém-lançado 100 anos de Chico Xavier, ele vai a três cidades realizar workshops sobre o brasileiro. “Querem saber tudo sobre a obra e a vida. O interesse aumentou depois que ele desencarnou”, afirma Baccelli, que também é médium, conviveu com Chico por duas décadas em Uberaba e faz um trabalho social reconhecido na cidade. Palestrantes espíritas brasileiros conhecidos no exterior, como Divaldo Franco e Raul Teixeira, estão pautando seus trabalhos deste ano na vida de Chico Xavier. Uma biografia está sendo lançada na França. O 3º Congresso Espírita Brasileiro, que acontecerá em abril, teve recorde de inscrições de estrangeiros. “Ele é, de fato, uma referência espírita e religiosa em todo o mundo”, afirma César Perri, diretor da FEB. 

A repetição das histórias sobre Chico é uma das explicações para a perpetuação de seu mito. Palestrantes internacionais falam de seus feitos. Amigos e parceiros das cidades em que ele viveu reproduzem dons e “causos” à exaustão. “Você sabia que ele materializava perfume?”, perguntam os amigos. “Ele sempre dizia que morreria num dia de muita alegria e acertou: desencarnou no meio das comemorações pelo pentacampeonato do Brasil na Copa do Mundo”, contam. “Chico sempre dizia: eu não sou nada, sou apenas um Cisco de Deus. Cisco Xavier”, afirmam. Percebe-se não só os mesmos relatos, mas ainda uma repetição de vocabulário e um ritmo parecido na narrativa. É como se estivesse sendo construída, pela tradição oral e pelos livros – e agora pelos filmes –, uma espécie de Evangelho de Chico Xavier, capaz de levar suas palavras e sua obra para além de sua existência. Nos museus dedicados ao médium, nas duas cidades onde viveu, as lendas de Chico se misturam a seus pertences, muitos mantidos intactos, do jeito que ele deixou. A coleção de chapéus, os ternos, as centenas de fotografias de amigos em porta-retratos e nas paredes. Parecem relíquias sagradas, algo que o espiritismo, na origem, não prevê – assim como regras, dogmas ou qualquer hierarquia religiosa.

A apropriação de preceitos cristãos e a forma como tocou a própria vida, trabalhando pelos mais pobres numa existência sem nenhum luxo, levou Chico Xavier a suplantar a barreira das religiões. Ganhou admiradores de fé católica e teve umbandistas batendo cabeça ao vê-lo. De sua parte, não discriminou ninguém pela crença ou mesmo pela opção sexual. Foi firme contra o aborto, mas enalteceu a invenção da pílula anticoncepcional. Jamais foi unanimidade – e nem é hoje. O pastor Antonio Mesquita, presidente do Conselho de Comunicação da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil diz que os evangélicos condenam o espiritismo. “Evitamos falar sobre esse assunto para que todos possam viver em paz, mas várias passagens na Bíblia mostram que a comunicação entre os homens e os mortos não é possível”, diz. “Não questionamos seu trabalho social, mas não existe nenhuma prova concreta de que ele realmente fazia comunicação com os mortos”, afirma o cético militante e fundador da organização Ceticismo Aberto, o analista de sistemas Kentaro Mori. Na Igreja Católica, para onde acorrem muitas pessoas que são também espíritas, Chico é visto “com carinho” (sobretudo por sua obra social), mas, ao mesmo tempo, como alguém com quem seria impossível haver conciliação teológica. “Há uma incompatibilidade nevrálgica com os espíritas”, diz o teólogo Fernando Altamyer, professor da PUC de São Paulo. “Eles acreditam em reencarnação. Os cristãos acreditam em morte e ressurreição. Não há como acomodar essa diferença teórica, embora as práticas possam ser semelhantes.”

O cinema na onda da vida pós-morte:
Outras estreias sobre espiritismo em 2010
  Reprodução NOSSO LAR
Baseado no maior best-seller da psicografia de Chico Xavier, que teria sido ditado pelo espírito André Luiz. Foi adaptado para as telas pelo cineasta Wagner Assis e descreve a vida após a morte, numa colônia-cidade no além
  
Reprodução AS CARTAS
O documentário da diretora Cristiana Grumbach mostra pessoas que receberam cartas de parentes mortos psicografadas por Chico Xavier. Nas entrevistas, falam sobre as perdas e o consolo trazido pelas mensagens
AS MÃES DE CHICO
“Docudrama” sobre mulheres que receberam cartas de filhos mortos por meio de Chico Xavier. O diretor Glauber Filho quer incluir no enredo assuntos como aborto, suicídio e uso de drogas, à luz do espiritismo
E A VIDA CONTINUA
Com direção do também ator Paulo Figueiredo, o filme se baseia no romance ditado por André Luiz a Chico Xavier. Já foi peça de sucesso e fala sobre amor e vingança entre personagens do plano espiritual.

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