6 de abr de 2010

'CHICO': CRÍTICA DIVERGE SOBRE FILME, MAS PUBLICO LOTA SALAS

O filme sobre "Chico Xavier' tem despertado deslumbramento, paixão, mas também críticas e manifestações de preconceito religioso ou de pura ignorância sobre o personagem central. Abaixo, reproduzimos duas críticas publicadas na imprensa sobre a produção


UMA PRODUÇÃO DO OUTRO MUNDO FADADA AO SUCESSO

Assisti “Chico Xavier” numa sala estourando de gente, no primeiro dia. A sessão começava às quatro e meia. Às quatro a fila começou a se formar e logo quem estava tomando café pulou da cadeira e foi guardar lugar.

Eu detesto fila, exceto as de cinema. Mesmo as filas de comprar ingresso eu não gosto, as pessoas ficam angustiadas, sem saber se haverá lugar no filme que desejam ver ou se sua saída será gorada. Mas a fila seguinte, a de espera para entrar, é alegre. E cinema tem que ter gente para ser vivo.

Ou seja, “Chico Xavier” vai muito bem. E outra vez gostei de um filme do Daniel Filho. Me parece hoje o cineasta que melhor interpreta essa necessidade que existe no Brasil de chegar a um público amplo sem fazer filmes que sejam programas de TV. Os dele podem até ter certa proximidade, mas são filmes de cinema. Penso que ele se apóia excessivamente em “elenco global”, às vezes isso deixa o filme com cara de novela. Podia fazer um trabalho de casting, percorrer um pouco os teatros, trazer caras novas, me parece que isso ajudaria o filme.

Bem, em linhas gerais o que penso sobre ele saiu na Folha (de 5/4/2010).

O que talvez seja o caso de acrescentar é que discordo completamente de Daniel Filho e de suas idéias sobre a necessidade de filmes “comunicarem”. Acho que isso é um problema. Comunicar pode ser mero sinônimo de conformismo, de cinema que não produz conhecimento, limita-se a reproduzi-lo.

Mas nem todo bom filme é destinado a pequenos públicos, e esse me parece um. Aborda um personagem que freqüentou intensamente o imaginário brasileiro no século passado e o faz com dignidade. Gostei muito dos atores principais, e gostei da escalação de Letícia Sabatela, por um motivo muito particular: ela sempre me parece soar falso, então, como faz um personagem do além, tudo se encaixa. Mas Tony Ramos, por exemplo, é um problema. Não por ele. Mas porque nos traz muito claramente a idéia de “interpretação”, a aceitação desse lado teatral das coisas. Eu entendo que seja um conforto trabalhar com um ator que de antemão sabe-se que fará bem seu papel, mas me parece que variar só ajudaria.

Por fim (por ora), pelo que vi acho que este filme será o nosso “Avatar”, vai ser um sucesso assombroso, sem 3D. Coisa do outro mundo.

Inácio Araújo
Crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida". Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).


 *  *  *
 FILME SUBSTIMA A INTELIGÊNCIA DO ESPECTADOR

Tarefa complexa, retratar a vida do mais famoso médium brasileiro no cinema oferecia vários caminhos e possibilidades. Preventivamente, o diretor Daniel Filho já se desculpa antes da primeira cena por algumas de suas escolhas: “A história de um homem não cabe num filme. O que se pode é ser fiel à essência de sua trajetória”.

Qual seria a essência da trajetória de Chico Xavier? O espectador que enfrentar os 124 minutos desta produção não encontrará uma resposta muito clara a esta questão. O filme nos sugere que o médium era um homem bondoso, cuja única missão seria ajudar o próximo. Era também vaidoso e, como qualquer ser humano, tinha medo de avião. Nada mais que isso.

“Chico Xavier” abre várias trilhas, oferecendo ao espectador, de relance, visões de como deve ter sido extraordinária a vida do médium. Mas Daniel Filho parece estar mais preocupado em emocionar do que informar. Para quem não conhece bem a doutrina, o espiritismo no filme soa como um exotismo, sem muito sentido. As suspeitas de charlatanismo são tratadas como “intrigas da oposição” e a reação da Igreja é mostrada como caricatura.

Dito desta forma, “Chico Xavier” seria apenas um filme muito bem produzido, com grandes atuações dos três atores que interpretam o médium, mas superficial, destinado a agradar aos fiéis e provocar a curiosidade dos demais.

Mas há algo mais, que chega a causar constrangimento. O filme opta por materializar o espírito que Chico Xavier considerava seu guia. Chama-se Emmanuel. É retratado como um jovem, alto, simpático, sempre vestido com uma túnica clara. Aparece em inúmeras cenas, conversando com o médium, orientando-o, cobrando disciplina e dando instruções.

No fundo, ao fazer esta opção inábil, “Chico Xavier”, o filme, parece temer que o público não seja capaz de compreender a tal essência que se propõe a contar. 

P.S.
: Caso tenha restado alguma dúvida, esclareço que este é um comentário sobre o filme, não sobre Chico Xavier ou o espiritismo.

Maurício Stycer
Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

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