1 de abr de 2010

'CHICO XAVIER ME IMPREGNOU', DIZ O ATOR NELSON XAVIER

Quando se pergunta como foi possível a ele, ator em filmes politicamente engajados, e membro de carteirinha do antigo Partido Comunista, viver na tela a figura de um ícone espiritual brasileiro, Nelson Xavier responde com uma pequena história. "Quando vi meu grande amigo Carlos Vereza interpretar o médium Bezerra de Menezes (no filme homônimo), me perguntei de que maneira um comunista como ele fora capaz de fazer esse papel." Com voz mansa, Nelson completa a resposta: "No fundo, sofremos de ignorância e preconceito."

Conta que anos atrás recebeu de presente o livro As Vidas de Chico Xavier. Na dedicatória, o autor, Marcel Souto Maior, escreveu que seu sonho era ver Nelson vivendo o médium nas telas. A leitura do livro teve papel fundamental na decisão de aceitar o convite. "Fui sendo envolvido por uma emoção progressiva", conta, "pois percebi que estava lendo a vida de um santo. Ele se devotou à caridade e ao bem do próximo, e pregou o amor de modo tão radical, que eu não resisti."

O depoimento tem o tom de uma conversão. Nelson diz que, apesar de ateu, o universo do espiritismo não lhe era estranho. Na melhor tradição brasileira, podia ser um "ateu, graças a Deus". E assim era. "Minha mãe era espírita, e algo dessas primeiras impressões de infância deve ter ficado em mim", diz. Mesmo em sua época de membro do Partidão, Nelson se comportava segundo aquele adágio espanhol: "yo no creo, pero que las hay, las hay". "Existem essas coisas por aí", ele diz, e por "coisas" ele se refere à comunicação entre mortos e vivos.

Quanto a Chico, Nelson diz que foi sendo impregnado progressivamente pelo personagem. A leitura do livro já o havia deixado sensibilizado; o processo de filmagem terminou por conquistá-lo de vez. "Nossa presença em Pedro Leopoldo e Uberaba, o contato com as pessoas que cuidaram do Chico, aquele ambiente todo, isso foi me impregnando de tal modo que fui pego pela emoção."

Não deixa de ser um estranho caminho para esse ator de 68 anos, que passou pelo Teatro de Arena e pelo Centro Popular de Cultura da UNE, duas das matrizes intelectuais nas quais se cozinhou o pensamento de esquerda no Brasil dos anos 50 e 60. No cinema começou em 1959 com Cidade Ameaçada, mas seu primeiro grande filme, e talvez maior personagem no cinema até hoje, seja em Os Fuzis (1963), do seu amigo Ruy Guerra. Em papel densamente político, Nelson interpreta Mário, soldado que protege um armazém ameaçado por uma população faminta prestes a saqueá-lo. É um dos filmes mais radicais do Cinema Novo. Seria retomado anos mais tarde, em 1976, desta vez sob a forma de uma codireção entre Nelson e Ruy: em A Queda, filme de padrões estéticos ousados, ele volta a interpretar Mário, desta vez na condição de ex-soldado e empregado da construção civil. São pontos altos de uma filmografia que soma 40 longas-metragens com títulos como A Falecida, de Leon Hirszman, A Rainha Diaba, de Antonio Carlos da Fontoura, O Mágico e o Delegado, de Fernando Cony Campos, Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco, e Vai Trabalhar, Vagabundo, de Hugo Carvana.

Trabalhou também numa coprodução internacional, O Testamento do Senhor Napumoceno, que lhe valeu o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado. No entanto, desse trabalho ele não gosta tanto. O caso é o seguinte: o filme é versão de um livro do escritor cabo-verdiano Germano Almeida, adaptado pelo cineasta português Francisco Manso. A história passa-se no Mindelo, em Cabo Verde, "e o diretor me forçou a um sotaque que francamente me desagrada", conta. Digo a ele que o acento é muito suave e passa longe da caricatura, mas Nelson não se conforma e é implacável: "Soa falso." Rigor: essa é a palavra que deveria ser soletrada como oração matinal por todo artista que se preze. O seu principal e implacável crítico tem de ser ele, em primeiro lugar. Nelson é assim.

Solidariedade. Foi esse rigor intelectual que o fez se questionar antes de assumir o papel de Chico Xavier. Mas foi tomado e vencido pela emoção: "Eu que havia criticado o Vereza, acabei pagando pela língua", diz. E depois se conforta: "Mas qual a contradição que existe entre o socialismo e a solidariedade humana?" Ele mesmo responde: "Nenhuma". 

Luiz Zanin Orichio

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