20 de abr de 2010

FILME NASCEU DO EMPENHO DE TRÊS ATEUS

A união de três ateus está em vias de entrar para a história do cinema nacional como o filme de maior bilheteria sobre um religioso. O fenômeno da vez é “Chico Xavier, o filme”, protagonizado por Nelson Xavier, dirigido por Daniel Filho sob a história original do livro “As vidas de Chico Xavier”, lançado por Marcel Souto Maior em 1994. Com 593 mil ingressos vendidos na estréia, no feriadão prolongado da Semana Santa – em que tradicionalmente o público que não viaja mal sai de casa, preferindo se dedicar aos almoços em família -, o longa é a maior bilheteria de abertura do cinema brasileiro dos últimos 15 anos. Curioso é que os três principais envolvidos na cinebiografia jamais professaram religião alguma.

- Sou ateu, assim como o Nelson e o Daniel. Talvez por isso o filme tenha ficado como ficou: uma reconstituição dos altos e baixos da trajetória de Chico Xavier que é contada sem a intenção de converter ou de explicar a doutrina”, opina Marcel, satisfeito que a história contada por ele em livro receba agora este aval do público nos cijnemas.
O autor acompanhou cenas fundamentais das filmagens do longa, que duraram oito semanas. Esta experiência ele conta em “Chico Xavier – A história do filme de Daniel Filho”, que vai além do que seria uma narrativa do making of.

- Chamei o Nelson Xavier de Chico umas três ou quatro vezes, tal o grau de incorporação com o personagem. O mais engraçado é que ele me entendia – afirma Marcel, citando outras estranhas coincidências que começaram a surgir antes mesmo que o projeto do filme nascesse.

Uma delas é que, assim que colocou o ponto final em “As vidas de Chico Xavier”, em 2004, imaginou que o conteúdo do livro daria um belo filme. Dez anos depois, quando se ocupava da edição revista e ampliada da obra, viu no rosto de Nelson Xavier o ator perfeito para encarnar (ou seria reencarnar?) Chico nas telas.

- Fiz questão de mandar um livro autografado em que lhe falei dessa minha vontade – lembra Marcel.

Esse desejo de autor talvez tenha pesado depois na insistência com que Nelson Xavier procurou Daniel Filho assim que soube o interesse do diretor em verter o filme para o cinema.

Outra coincidência apontada por Marcel foi, ao bater os olhos no roteiro escrito por Marcos Bernstein (de “Central do Brasil”), reconhecer ali as dez cenas que ele próprio destacaria para uma cinebiografia. Entre elas, há o primeiro contato de Chico com Emmanuel, espírito a quem são atribuídos seus principais livros. Outra é a que aborda aborda o fato de Chico Xavier, tão voltado para as coisas da beleza interior, ceder à vaidade de usar peruca.

- No começo, ele argumentava com respostas mineiras alegando que usava peruca para se proteger do frio ou que as pessoas tocavam muito em sua cabeça. Até que chegou uma hora que ele explodiu e falou: “É porque eu me acho mais bonito mesmo! E daí? Não tenho direito a privacidade, não tenho dinheiro, então me dêem o direito de, ao menos, usar essa peruca!”.

Marcel, de tão satisfeito com o resultado final da produção, viu-se livre de típicas “vaidades de autor”.

- Jamais vou poder dizer “Destruíram meu livro” ou “Deturparam tudo”. Tenho certeza de que também não vou ouvir ninguém dizendo, à saída da sessão, “O livro é muito melhor que o filme”. Tudo é muito fiel ao que escrevi – diz.

O jornalista se interessou pela história de Chico Xavier nos anos 90, quando, ao escrever uma matéria sobre o sucesso da peça espírita “Além da vida” (na época com mais de dois milhões de espectadores), tomou contato com a história de Chico, figura maior do espiritismo no Brasil, que até então já tinha mais de 400 livros publicados e mais de 20 milhões de exemplares de vendagem. E detalhe: sem que ele próprio tivesse uma biografia à altura de sua própria importância.

Em alguns momentos de “As vidas de Chico Xavier”, Marcel Souto Maior vê sua falta de fé posta à prova. Sobretudo em duas das três ocasiões em que esteve com o biografado para checar pontos de sua história. Em uma desatou a chorar convulsivamente e na outra sentiu a mão em brasas. Marcel não tentou, porém, buscar explicações mais profundas para ambas as sensibilizações. Só que não consegue tirar da cabeça algumas indagações acerca de seu personagem:

- O que me desconcerta como cético são basicamente três questões: Por que alguém se doaria tanto? Por que abrir mão da autoria de tantos livros, cujos direitos autorais poderiam tê-lo deixado milionário? Por que abrir mão da privacidade, da paz e do seu tempo para se dedicar ao próximo?

O escritor acredita que, seja lá a fé que cada espectador tenha, ele não conseguirá sair da sala de cinema como entrou, após assistir a “Chico Xavier”.

Para o escritor, a sabedoria de Chico Xavier é a maior lição a se tirar da história de sua vida.”Graças a Deus eu aprendi a viver apenas com o necessário”, dizia o líder espírita, sobre o fato de doar os direitos autorais dos livros que psicografava. “Os livros não me pertencem, eu não escrevi nada. Eles, os espíritos, escreveram”, costumava dizer.

- O Chico repetiu isso até morrer, na cama estreita do quarto simples, da casa dele, em Uberaba”, lembra Marcel.
A partir de reportagem da Globo.com

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