22 de mai de 2010

EGBERTO GISMONTI: AUTOR DA TRILHA DE 'CHICO XAVIER'

“Mas eu nada tenho a ver com espiritismo, a única religião que tenho é a música”, assim retrucou Egberto Gismonti ao receber o convite de Daniel Filho para escrever a trilha sonora de “Chico Xavier”. Para fazer o compositor mudar de ideia, o diretor do filme brasileiro de maior bilheteria este ano – após sua terceira semana de exibição já ultrapassa 2 milhões de espectadores – usou de um argumento pinçado de uma conversa anterior entre os dois na qual Gismonti relatara a forma como escrevia nas suas partituras em fichários.

"Daniel fez um paralelo entre minha maneira de trabalhar, passando para o papel as ideias musicais que brotam de algum lugar, e a psicografia", conta, em seu apartamento no Jardim Botânico, o músico, que, vencido o travo inicial, mergulhou com prazer nesta que já é a sua 29ª trilha sonora, depois de, no ano passado, também para Daniel Filho, ter feito a música de “Tempos de paz” (a versão para o cinema da peça de Bosco Brasil, com Tony Ramos e Dan Stulbach como protagonistas).

O resultado nas salas de cinema prova que valeu a insistência do diretor. No “desenho do personagem” que Gismonti fez para a música de “Chico Xavier” há três fases bem distintas. Ruídos sinfônicos predominam no início da história, quando o garoto e seus parentes ainda não entendem e tratam com algum temor os sinais de mediunidade; pequenas melodias que aos poucos vão se impondo, a partir do momento em que Chico Xavier domina seus poderes; e, no fim, “só melodias lindas”. Entre essas, em meio às composições originais, estão um trecho de “Clair de Lune”, de Claude Debussy, e uma valsa que seu avô materno, Antônio Gismonti, escrevera para uma das filhas, “Ruth”.

"Acompanhando a vida de Chico Xavier, o que ele tinha de mais caro, amado? A mãe, depois a madrasta, as mulheres a quem ele tanto se ligava. Daí a ideia de usar essa valsa que meu avô fez para a minha mãe",  esclarece Gismonti, que também usou de muitas lembranças de Carmo, no estado do Rio, onde nasceu, em 5 de dezembro de 1947, para se transportar a Pedro Leopoldo (nos arredores de Belo Horizonte) e Uberaba, onde o médium nasceu e viveu. – Os habitantes de Carmo fazem questão de dizer que são fluminenses, mas, tão próximos a Minas Gerais, o sotaque deles é mineiro, assim como muitas de suas tradições.

Diferentes sotaques e tradições têm convivido com Egberto Amin Gismonti desde sempre. Algo que explora em sua música inclassificável, misturando elementos clássicos, profundamente brasileiros (dos ritmos nordestinos aos pré-cabralinos, a partir de sua imersão na cultura dos índios do Xingu), jazz e o diabo a quatro. Filho de um árabe, que chegou ao Brasil vindo do Líbano criança, com uma descendente de italianos, ele seria mais uma prova da convivência pacífica de opostos.

- Afinal, a cultura italiana tem a coisa da mama, enquanto a árabe é patriarcal – diz Gismonti, que não vê surpresa entre o atual sucesso de “Chico Xavier” e o fato de, nos últimos tempos, sua música andar distante de palcos e lojas de discos brasileiros.

- Tenho 64 álbuns e, hoje, meu intuito não é mais produzir disco para vender, não tenho o menor interesse no mercado, e sim em fazer a minha música – diz Gismonti, que, numa inédita associação, hoje, através do selo Carmo, é coprodutor de suas gravações na gravadora alemã ECM. – Por quase dois anos, estudei direito autoral com dois dos maiores conhecedores do assunto no Brasil e desde então administro todos os detalhes de minha carreira.

Como sócio de seus fonogramas, meses após a ECM distribuir seus discos para mais de 40 países, Gismonti tem o direito de fazer o que quiser com eles. Para o Brasil e demais países da América do Sul, planeja distribui-los gratuitamente em seus concertos. É o que deve acontecer com último, o duplo “Saudações”, que num CD traz o tema ” Sertão Veredas: tributo à miscigenação”, com acompanhamento de uma orquestra cubana, e no outro, duos com seu filho, o também violonista e compositor Alexandre Gismonti. Este, mais um motivo de prazer e orgulho, ao lado da filha Bianca, pianista no Duo GisBranco.

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