29 de mai de 2010

FUI APRESENTADO À MORTE AINDA CRIANÇA


Pense comigo. Quando você teve seu primeiro contato com a morte? Muitos tem ao choque de o ter ainda na infância, com algum conhecido ou parente; na adolescência com avós e pais e, alguns poucos, na idade madura, quando a partida de amigos ou meros contemporâneos nos leva a inevitáveis reflexões de vida. Minha lembrança mais remota da finitude da vida foi da morte do "Seo" Nicola, um senhor meio italianado que frequentava o bar que meu pai manteve até eu completar uns dez anos. Era ele uma pessoa de poucas palavras e resmungão, com uma aparência lúgubre para a minha idade e um certo ar de mistério e maldade, como se abordasse e desse fim a todas as crianças que inadvertidamente passassem pela frente de sua casa.

Certamente este não é um quadro fiel, influenciado pelo meu medo de criança, e talvez o "Seo" Nicola não passasse de um velhinho simpático, que me assustava apenas porque era a pessoa mais enrugada que conhecia. Não importa. Mas o fato é que, para o bem e para o mal, a sua partida me apresentou à existência da morte nesta minha vida. E a simples notícia de que ele tinha morrido já era suficientemente extraordinária para alguém que, como eu, julgava a humanidade imortal.

Mas esta experiência seria meramente teórica e distante se um frequentador  do bar não tivesse a "brilhante" idéia de perguntar se eu queria ir ao velório do morto. Para alguém que sequer sabia que a morte existia, a palavra velório disse menos ainda e, certamente distraído por algo mais importante, acabei dizendo sim. Meu Deus! E lá fui eu, levado como um troféu pelo adulto "brilhante", exibido como o "amiguinho" do "Seo" Nicola e que "fazia questão" de se despedir do companheiro. Chegando lá, a filha do defunto, ainda mais solidária, me pegou no colo para que pudesse ver o velho italiano no caixão, com seu terno puído e o nariz cheio de algodão -- lembrança que me atormentaria por muitos meses.

Não sei o que houve em seguida. Na verdade, o mundo parou naquele instante. Pensei em todas as pessoas que conhecia e que, um dia, iriam morrer. Calculei, evidentemente, minha própria morte, as dores terríveis que teria de suportar e tive medo de não poder me despedir de ninguém. Pois foi justamente o que aconteceu com "Seo" Nicola, que teve um enfarto à noite, amanhacendo morto e calado, privado de todas as palavras que gostaria de dirigir às pessoas que gostava e mesmo às que não suportava.

Por alguns dias tive medo. Medo de ficar só, do escuro e, claro, da alma penada do "Seo" Nicola. Mas ele, o medo, foi logo substituído pelas dúvidas e tais dúvidas me fizeram mais tarde estudar e aceitar o Espiritismo como teoria de vida.

Lembrei disso tudo ao ler descompromissadamente as tiras de "Calvin", no livro "Tem alguma coisa babando embaixo da cama" (Conrad Editora, 127 págs., R$.23,90). Para as pessoas familiarizadas com o personagem é até surpreendente ver aquele garoto "obstinadamente perverso" sendo tocado pela morte de um esquilo que acaba de recolher no bosque. E mais: concluir em poucas palavras a imortalidade de cada um na síntese que é a bela lembrança de uma vida. 


Para visualizar as tiras em destaque, clique nas imagens

1 Comentário:

Anjo Negro disse...

Muito bom! Interessante essa forma de mostrar a morte em forma de quadrinhos.Nascida em uma família não espírita, meu primeiro impacto com a mortena na tenra infância foi traumático, ao ver os adultos sofrendo em demasia.
Crianças tem mais facilidade em lidar com a morte;talvez pelo seu menor apego a materia, devido a tenra idade.
Abraço Fraterno!

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