1 de jun de 2010

CARTA LIGEIRA - Alfredo Nora

Meu Lasneau, não é bilhete,
Não é ofício, nem ata.
É o coração que desata
Meus pesares num lembrete.

I
Lasneau amigo, esta choça,
Onde a carne, breve, passa,
Cheia de lama e fumaça,
É minúscula palhoça.

A Terra, ante o sol da Graça,
É feio talhão de roça,
Detendo por balda nossa
Descrença, guerra e cachaça.

Agora é que entendo isso,
Mas é triste a fé sem viço
Que o sepulcro impõe à pressa...

Espere sem alvoroço,
Além da prisão de osso,
A vida real começa.

II
Oh! meu caro, se eu pudesse
Dizer tudo o que não disse,
Sem a velha esquisitice
Que inda agora me entontece!

Entretanto, é clara a messe
Da sementeira de asnice.
Perdi tempo em maluquice
E o tempo me desconhece.

É natural que padeça
A minha pobre cabeça
Perante a Luz, face a face.

Não me olvide em sua prece,
Desejo que a luta cesse,
Que a coisa melhore e... passe.

Alfredo Nora
Alfredo José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881, no município de Piraí, Estado do Rio, e desencarnou em 13 de novembro de 1948. Poeta e jornalista. 
Imagem: Flickr - Michael Cavén

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