25 de ago de 2010

'AS CARTAS PSICOGRAFADAS DE CHICO XAVIER' - ANÁLISE

Assistente e pesquisadora de diversos filmes de Eduardo Coutinho, como Santo Forte e Jogo de Cena, Cristiana Grumbach (Morro da Conceição) dirigiu "As Cartas Psicografadas de Chico Xavier" na intenção de entender a experiência das mães que perderam filhos e qual o significado de morte após uma tragédia. A cineasta saiu em busca de algo. “Um sentido da vida”, talvez ou descobrir,algo bastante duro, aliás, que é a perda de uma mãe que enfrenta a morte inesperada de um filho. Qual imagem dá e pode dar conta disso?

Grumbach foi ao encontro das pessoas e às tais cartas do título. Seu filme organiza-se em depoimentos das mães, às vezes acompanhadas de seus maridos, relatando a perda, informando detalhes a ver com essas perdas, nunca indo ao passado anterior à morte ou dando conteúdos psicológicos de seus filhos – e, antes ou depois de suas vozes, a respectiva carta psicografada é ouvida. São relatos afetivos, doídos, cuja conclusão vai se construindo ao longo das entrevistas: mesmo com o alento das cartas, com as quais essas mães e pais aceitam melhor a perda, a dor e tristeza jamais somem.

É uma conclusão duríssima, e o que é levado em conta, aqui, é justamente o processo pelo qual o filme avança para o encontro de seu corpo, de sua imagem. O filme não entra no mérito da psicografia existir ou não. O que parece interessar mais é mesmo a busca por algo infilmável, como a dor, a perda e a tristeza – ou seja, é capturar o vazio. Em "As Cartas...", Grumbach filma o que vem dessas ausências: nem tanto a reação a essas ausências, e mais quem fala sobre essas reações provocadas pelas ausências. É um procedimento que gera uma complexidade, ainda que o filme seja bastante direto em como registra seu assunto. As tomadas mais alongadas de uma sala vazia, uma poltrona vazia, logo a seguir preenchidas pela presença da mãe, são uma solução formidável. O vazio só transmite ausência se ele foi ou será preenchido, e as mães e suas interioridades expressadas acabam por dar “visibilidade” desse vácuo, fazerem, elas mesmas, a imagem de sua tristeza, e não deixar com que seus corpos, faces e falas sirvam à dramaturgia da máquina operada pelo outro.

Assistir a "As Cartas Psicografadas por Chico Xavier" pode ser uma experiência árdua em seus 107 min. É muito determinante o modo como Cristiana Grumbach se aproxima dos seus objetos e avança com seu filme. Esse respeito, efetivamente, está nos tais planos de salas vazias, naquilo que transmite sobre a ausência com o mínimo de manipulação (plano médio fixo enquadrando um determinado espaço dentro do qual não ocorre ação humana). A diretora, com sua câmera, aproxima-se de um invisível a ver com os seres, nas suas sensações de ausência, tristezas e lembranças... o que, de pronto, é o que chamamos de vida.

A partir de artigo de Paulo Santos Lima. Leia no original

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