2 de ago de 2010

CARISMÁTICO, CHICO DESPERTOU RESPEITO E COMPAIXÃO

Órfão Maltratado na infância, um piadista quando adulto, vítima de  uma série de doenças na velhice. Não foi à toa que Chico Xavier conquistou a compaixão de todo o país.

"Em 1931, o espírito do poeta Augusto dos Anjos sentia muita dificuldade em escrever por meu intermédio. Na época eu trabalhava em um armazém e cuidava de uma plantação de alho. Os espíritos começavam a conversar comigo. E então ele ditou uma poesia, chamada Vozes de uma Sombra. Começou a falar com aquelas palavras maravilhosas, muito técnicas. Eu com o regador na mão e custava a compreender. Quem era eu pra entender aquilo, que estava aguando canteiro de alho?", contava com jeitinho mineiro, fazendo a plateia do Pinga-Fogo gargalhar. Chico era um piadista. Mas não só o humor deu o carisma que o acompanharia até o fim da vida. Chico Xavier era visto como um mártir, acima de tudo.

A começar por sua história antes de virar o médium que o país conheceu. Mineiro de família pobre, Chico dizia ouvir espíritos aos 5 anos de idade. Afirmava conversar com a mãe, recém-falecida. Da madrinha, com quem morava, ouviu um diagnóstico: estaria louco. E ganhou uns corretivos: garfadas (isso, golpes com garfo mesmo) no abdome. Rita de Cassia, a madrinha, ainda o obrigava a lamber as feridas de um primo, pra não falar mais daquelas maluquices de além. Órfão, mal-tratado e obrigado a trocar a escola pelo trabalho: assim era o pequeno Chico Xavier. Pelo menos na visão que Clementino de Alencar, jornalista de O Globo, passou em uma das primeiras reportagens sobre o médium, de 1935. Ela serviria como base para muitas das biografias já lançadas sobre Chico, e ajudaria a perpetuar a imagem de sofredor atribuída ao médium. Mesmo que detalhes da história tenham sido mais tarde desmentidos, como a versão de que Chico não era letrado.

Contribuiu para essa imagem uma política adotada por Chico desde sua primeira obra: doar todo o dinheiro conseguido com os direitos autorais de seus livros às editoras espíritas que os publicavam - e que costumavam manter instituições assistenciais. Ele nem assinava as obras. A autoria ficava em nome do espírito que teria ditado as palavras, como André Luiz e Emmanuel, os mais frequentes. "Os livros não me pertencem. Não escrevi nada. Eles escreveram", dizia. Se tivesse ficado com os direitos autorais, Chico teria levado uma bolada: 2,1 milhões de cruzeiros por ano, o suficiente para comprar 160 fuscas na época e equivalente a R$ 670 mil hoje. O cálculo foi feito nos anos 70 por especialistas, considerando uma venda de 300 mil livros por ano. Com a doação, Chico ajudou mais de 2 mil instituições do país, segundo seus assessores.

Desde 1960, quando se aposentou, Chico vivia com uma pensão de funcionário público (trabalhou como escrivão e datilógrafo no Ministério da Agricultura). Sua casa em Uberaba, preservada pelo filho Eurípedes, tinha um portão de quase 3 metros de altura para impedir que os mais fanáticos a invadissem. Por dentro era simples: tinha móveis baratos de madeira corroídos e decoração feita com presentes dos amigos (bordados, mantas, placas, quadros). Está lá também a coleção com mais de 40 boinas, que Chico usava para esconder a careca (e que substituiriam as perucas).

O médium também aparecia sob os olhos do país como um homem de saúde frágil. Ainda em seus 20 anos, quando já passava horas em sessões de psicografia à luz de velas, Chico descobriu uma catarata no olho direito. Depois dos 60, sofreu com pressão alta, uma hérnia e um tumor na próstata, que ele se recusou a operar com Zé Arigó, o amigo médium que dizia receber o médico Dr. Fritz. Em junho de 2001, quando se acreditava que estaria à beira da morte por causa de uma pneumonia nos dois pulmões, Chico conseguiu se salvar. E o Brasil inteiro comentou o que parecia um milagre.

Uma imagem captada pela TV Globo mostrou um raio de sol entrando no quarto do medium exatamente no dia em que Chico teve uma melhora repentina. "Ele já vinha tomando antibióticos havia 4 dias quando, de repente, começou a se recuperar", diz Eurípedes Tahan, o médico então responsável por Chico, e também amigo do médium. Dois dias depois, Chico recebia alta do hospital. Providência divina ou resultado dos remédios? Ninguém cravou a resposta. Mas o vídeo do episódio continua sendo visto até hoje pelos brasileiros no YouTube - tem mais de 100 mil visualizações.

Chico morreu em 2002, aos 92 anos, cumprindo uma profecia sua. "Só vou morrer no dia em que o Brasil todo estiver feliz", dizia Chico. E morreu mesmo. O médium teve uma parada cardíaca no dia 30 de junho, horas antes de o Brasil ganhar a Copa do Mundo de Futebol. Cerca de 120 mil pessoas foram a seu enterro, formando uma fila de 4 quilômetros e 3 horas de espera. O então presidente Fernando Henrique Cardoso emitiu uma nota lamentando a ida daquele que era "um grande líder espiritual e uma figura querida e admirada pelo Brasil inteiro".

Assim que Chico morreu, vários documentos que ele guardava - em geral cartas de pessoas que escreviam para ele - foram queimados por seu filho adotivo, Eurípedes Higino. Foi um pedido do pai em testamento. "Ele achava que era necessário para não dar nenhuma confusão para ninguém no futuro", diz. O filho também cuida da marca que se criou em torno de Chico Xavier (veja o boxe acima). Graças ao registro da patente da assinatura do pai, ele hoje recebe 10% do lucro de tudo o que é lançado com ela (inclusive de filmes, como As Vidas de Chico Xavier, nos cinemas brasileiros a partir de abril). O trabalho de Chico continua hoje nas mãos de outros médiuns, como seu colega e seguidor Carlos Bacelli, que atrai centenas de fiéis por semana a suas sessões de psicografia em Uberaba (há excursões toda semana saindo de São Paulo e do Rio de Janeiro). Bacelli inclusive diz receber mensagens do próprio Chico Xavier. E não é o único. "Mais de 20 médiuns já disseram ter psicografado textos de Chico", diz Higino. "Tudo mentira. Chico disse que não voltaria tão cedo." Como ele tem tanta certeza? O pai teria deixado um código, conhecido apenas por Higino e por Tahan, para ser identificado caso resolvesse mandar um alô para o mundo dos vivos. "Continuaremos esperando", diz o filho. 

por Gisela Blanco. Com reportagem de Hellen Samantta em Foz do Iguaçu

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