3 de ago de 2010

CHICO XAVIER : UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O MÉDIUM

Há 100 anos nascia o homem que faria brasileiros de todos os credos acreditar na vida após a morte. Que mudaria a vida de famílias desconsoladas. E que colocaria a ciência atrás de respostas para as vozes do outro mundo. o mito Chico Xavier gerou tudo isso. mas o que gerou o mito chico xavier?

Até hoje chegam chegam cartas a Uberaba, Minas Gerais, endereçadas a Chico Xavier. Vêm pelo correio ou são jogadas por cima do muro do centro em que ele trabalhava. Parece que seus autores não se lembram de que Chico não está lá - morreu há 8 anos. Quer dizer, o homem morreu. O mito não. Normal para quem, como ele, teve trajetória de superstar. Nos anos 80, mais de 100 pessoas faziam fila à sua porta todo dia. Nos 90, foi destinatário recordista de cartas no Brasil: 2 mil por mês. Seus mais de 450 livros venderam 25 milhões de cópias. E sua influência ajudou a tornar o Brasil o maior país kardecista do mundo, com 20 milhões de fiéis. Em 2 de abril, Chico completaria 100 anos. Nem após sua morte outro médium despertou tamanho fascínio. O que Chico tinha de diferente? A SUPER investigou. E achou uma fórmula com 3 ingredientes. Comecemos por aquele que foi a origem de toda essa história: as cartas dos mortos.

As cartas
Em 35% das cartas, a assinatura era muito parecida com a do morto, diz um estudo feito com familiares

É numa gaveta do guarda-roupa que Hilda Braga mantém há 30 anos a carta do filho Eurípedes, morto aos 21 anos por um aneurisma. A casa simples da periferia de Uberaba - sem telefone e cheia de eletrônicos quebrados, como a TV preto e branco - também guardou por um tempo 100 cópias da mensagem. Mas todas já foram distribuídas por Hilda a amigos e conhecidos. "Mãezinha Hilda, agradeço as suas preces", diz o texto. "Encontrei na vovó Sinhana a continuação do seu devotamento de mãe." A mensagem foi escrita pelas mãos de Chico Xavier. Mas Hilda, hoje uma senhora de 80 anos, não tem dúvida sobre a autoria das palavras. "Vieram de meu filho."

A declaração é comum no discurso de famílias que receberam alguma mensagem do além por Chico Xavier. Qual o trunfo do médium capaz de gerar essa certeza?

Pioneirismo não é. Nos anos 20, a carioca Yvonne do Amaral Pereira já psicografava receitas do médico Bezerra de Menezes, morto no século 19. Em Minas, Zilda Gama colocava as mãos sobre os olhos e escrevia livros com a assinatura de espíritos. Mas os textos dificilmente continham algum indício que servisse como prova irrefutável da autoria.

Já as psicografadas por Chico tinham indícios: dados familiares aos quais o médium supostamente não teria acesso. Na assinada por Eurípedes, são citados a avó Sinhana, o pai, Ibrahim, e um irmão, Vicente. Além dos amigos, que estavam com ele nos últimos momentos de vida, e da morte pelo aneurisma.

É um padrão nas cartas de Chico. Nomes de parentes aparecem em 93% das mensagens analisadas em um estudo da Associação Médico-Espírita de São Paulo, de 1990. Baseada em entrevistas com 45 famílias para quem Chico psicografou, a pesquisa também mostrou que a assinatura da carta era tida como muito parecida com a de seu suposto autor em 35% dos casos.

"Foi um susto ver nas cartas o nome da babá que trabalhava em casa", diz a mineira Célia Diniz, que recebeu uma mensagem assinada pelo filho, morto em um acidente de bicicleta aos 3 anos de idade. Célia representa o público cativo de Chico: as mães. Atrás de notícias dos filhos mortos, elas compareciam em massa nos dois centros que Chico teve - o primeiro em Pedro Leopoldo, cidade mineira onde o médium nasceu, e o segundo em Uberaba, onde ele virou mito. Chico recebeu até mães famosas, como a atriz Nair Bello. Ela foi 3 vezes a Uberaba antes de receber, em 1977, uma mensagem do filho Manoel, morto dois anos antes em um acidente de carro.

A atração das cartas estava no conforto que traziam. As mães buscavam consolo, explicação para a perda ou um mero alívio para a saudade. E encontravam isso nas mensagens. Além das referências familiares, que davam o ar de autenticidade, as cartas traziam boas notícias sobre o além. E vinham cheias de expressões reconfortantes. Grande parte começava do mesmo jeito: "Querida mãezinha".

"Eu estava prestes a enlouquecer quando a primeira carta chegou. Já havia pedido para ser internada", diz a paulista Sônia Muszkat. Foi em 1979 que Sônia recebeu essa mensagem do filho Roberto, morto aos 19 anos com um choque anafilático após uma cirurgia de desvio de septo. "Na carta, Roberto descrevia sua morte e pedia que eu não me culpasse", afirma Sônia. Ela receberia outros 53 textos psicografados por Chico. Alguns vinham com frases em hebraico - Sônia e o marido são judeus. Roberto não falava o idioma, mas Chico dizia ao casal que ele estava aprendendo em uma colônia judaica no mundo espiritual. David, o pai de Roberto, chegou a desconfiar da história. Mas acabou convencido. "Em uma das sessões de psicografia, um cheiro delicioso de gardênias invadiu a sala. Depois veio uma mensagem assinada por Roberto: mãezinha querida, dedico essas flores a você."

Assim como Roberto, muitos desconfiaram das informações que apareciam nas cartas. E desconfiam até hoje.

A rotina nas sessões de psicografia era assim: Chico se sentava à cabeceira da mesa, todas as sextas e sábados. Psicografava 4 ou 5 cartas de parentes de alguns sortudos entre as dezenas de presentes à sessão. Segundo Chico, ele não podia escolher quem seria atendido - apenas os próprios espíritos. "O telefone só toca de lá para cá", dizia. Quem entrava na fila deixava o nome em uma lista de espera e podia até acompanhar as sessões de psicografia, mas sem garantias. Daí a estupefação das famílias quando Chico lia em voz alta uma mensagem cheia de referências à família e a situações vividas pelo morto.

Mas há quem diga que Chico tinha um jeito de conseguir os dados. "Funcionários do centro espírita iam à fila pegar detalhes dos mortos. Ou aproveitavam as histórias relatadas por parentes nas cartas em que pediam uma audiência. As mensagens de Chico continham essas informações", diz o médico Waldo Vieira, com quem Chico dividiu o trabalho no centro entre 1955 e 1969. A dupla psicografava junto: quando um terminava de escrever as frases no papel, o outro assumia o lápis. "Os dois produziam textos complementares assinados pelo mesmo autor", diz o jornalista Marcel Souto Maior em As Vidas de Chico Xavier. A parceria acabou nos anos 60, quando Vieira continuou seus estudos de medicina no exterior. Hoje ele vive em Foz do Iguaçu, onde fundou um centro de estudos religiosos.

Gente como Célia Diniz e Sônia Muszkat diz não ter fornecido qualquer dado a Chico. Mas a pesquisa da Associação Médico-Espírita de São Paulo indica que Chico fazia uma entrevista - de até 10 minutos - com famílias que participariam das sessões de psicografia. Aconteceu com a do engenheiro paulista Mauricio Lopes, de 38 anos. Nos anos 70, seu irmão de 9 anos foi atropelado e morto. A família foi várias vezes a Uberaba atrás de ajuda. "Chico perguntou a minha mãe detalhes da morte e nomes de parentes. E tudo foi citado na carta depois", diz Maurício.

Mas será que Chico era o líder de um grupo que saía à caça de dados de mortos? O filho adotivo do médium, Eurípedes Higino dos Reis, garante que não: "Chico conversava com cerca de 60 pessoas toda semana, mas sobre vários assuntos. Elas pediam conselhos financeiros, falavam sobre doenças. Nunca vi funcionários questionarem famílias desde que comecei a cuidar do centro em 1975".

Até hoje poucos estudos tentaram verificar a autenticidade da psicografia de Chico. Um dos que mais avançaram, conduzido hoje pela Federação Espírita Brasileira, aponta que os textos podem ser genuínos. A prova seriam fatos históricos que Chico dificilmente conheceria, mas aparecem em alguns de seus textos (veja no boxe à direita).

O fato é que as cartas ganharam credibilidade, inspiradas por fontes do além ou terrenas. Até serviram como prova em 3 julgamentos - e absolveram um empresário acusado de homicídio. (Chico psicografou uma mensagem da vítima dizendo que a morte havia sido acidental.) As cartas geraram mais fé do que desconfiança. A verdadeira polêmica surgiria no outro filão do médium: os romances. 

por Gisela Blanco. Com reportagem de Hellen Samantta em Foz do Iguaçu

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