18 de ago de 2010

O DIA MAIS LONGO DE SUAS VIDAS

Ginny Meyer consultou o relógio. O ponteiro grande se aproximava do 11 e o pequeno tocava o cinco. Neil chegará do trabalho a qualquer momento, ela pensou. Ben não ficará sozinho por muito tempo. Além disso, ele e seu amiguinho Andrew estavam grudados na televisão e nem mesmo notaram quando Ginny lhes disse que iria até a casa de Nancy por alguns minutos, para mostrar-lhe a torta de salmão que acabara de fazer. 

Nancy era a vizinha ideal. Além de compartilhar receitas, ela muitas vezes se dispunha a ouvir sua amiga e se oferecia para comprar alguma coisa no mercado ou pegar as crianças na escola. De certa maneira, era como ter uma irmã por perto, e esse pensamento alegrou o coração de Ginny. 


Nancy comeu o pedaço da torta acompanhado com um Chablis leve e seco. Era uma ocasião especial, pois as duas amigas não se reuniam havia quase um mês. Quando Nancy lhe sorriu carinhosamente, Ginny soube de imediato que sua amiga tinha aprovado sua última criação gastronômica e sentiu-se orgulhosa.

O barulho de uma porta de carro sendo fechada fez com que as duas interrompessem a degustação. Ginny sabia que provavelmente era Neil chegando e apressou-se em despedir-se.

Ao atravessar correndo o gramado da frente da casa, Ginny viu a caminhonete de Neil na entrada da garagem. No momento em que se aproximava da porta da frente, esta se abriu de repente e o pequeno Andrew praticamente a derrubou. Ele se virou e parou, olhou para ela por um instante e continuou a correr pela calçada. Ginny seguiu adiante, pensando que talvez Ben tivesse dito alguma coisa que magoara o amigo.

Ao entrar em casa, ela ouviu o som ensurdecedor da televisão. Chamou por Ben e Neil, pegou o controle remoto e abaixou o volume. Imediatamente notou o silêncio absoluto. Tudo pareceu ficar imóvel. Ela se encaminhou para a escada e mais uma vez chamou. Nada. O coração de Ginny começou a bater forte. Havia alguma coisa errada.

Ao ouvir um grunhido no andar de cima, ela subiu a escada correndo. Quando chegou ao topo, ouviu um grito terrível vindo do quarto do filho. Ao olhar para dentro, deparou com o impensável. Diante dela estava Neil, coberto de sangue, segurando no colo o corpo sem vida de Ben. Neil olhava para o teto e gritava de dor. As balas estavam espalhadas pelo chão, junto do revólver que Ginny tinha exigido que ele escondesse dois dias antes para que Ben não brincasse com a arma.

Infelizmente era tarde demais. Não havia o que dizer, a dor era imensurável. Os dois se abraçaram ao corpo do menino e imploraram por sua vida, mas ele já tinha partido.

E assim começou o dia mais longo da vida dos dois.

Trecho do livro "Assuntos Pendentes" (Editora Sextante, 256 págs.), do médium norte-americano James Van Praagh. A obra conta com histórias, divertidas e inspiradoras,  que demonstram como os vivos e os mortos são liberados de um enorme "peso emocional" quando cuidam com franqueza de perdas, culpas e remorsos. São lições de carinho, perdão e amor.
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