8 de set de 2010

ALÉM DO ESPIRITISMO, A CIÊNCIA DO SONHO - Parte 2


FREUD ESTAVA CERTO?
Na avaliação de Carey Morewedge, professor assistente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Carnegie Mellon, EUA, a verdade sobre os sonhos se encontra em uma intersecção das três teorias predominantes sobre eles: a freudiana; a de que sonhos servem para consolidar memórias e aprendizado; e a crença de que suas imagens são totalmente aleatórias. "É provável que haja um pouco de verdade em cada uma delas", diz.

"Freud acertou no que viu e no que não viu. A gente cada vez mais resgata a obra dele", afirma o brasiliense Sidarta Ribeiro, Ph.D. em neurobiologia, doutor em neurociências pela Universidade Rockefeller com pós-doutorado pela Universidade Duke, EUA, e idealizador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), ao lado de Miguel Nicolelis, doutor em neurofisiologia pela USP, professor de neurobiologia na Duke e cotado ao prêmio Nobel de Medicina deste ano.

A dupla defende que os sonhos têm relação direta com o nosso dia a dia. "Eles estão ligados de uma maneira forte com aquilo que está acontecendo ao sonhador. Um exemplo: a gente sabe que pessoas que estão experimentando uma crise no casamento sonham bastante com isso", afirma Sidarta.

Luciano Ribeiro Pinto Júnior, neurologista e pesquisador da disciplina de medicina e biologia do sono da Unifesp, concorda. "Você sonha com coisas que viveu durante o dia. Imagine uma pessoa que encontrou um conhecido e sonhou com um contato sexual com essa pessoa. Juntou um desejo, uma emoção, a uma memória. A pessoa em questão pode representar alguma coisa ou ser só um instrumento para realizar o desejo."

GUERRA - Crianças que cresceram no Curdistão, região do Iraque, têm sonhos aterrorizantes, enquanto crianças finlandesas, sem guerra, sonham normalmente

A relação entre sonhos e o sexo é tema do livro Sex Dreams and Symbols: Interpreting Your Subconscious Desires (Sonhos sexuais e símbolos: interpretando seus desejos subconscientes), da psicóloga Pam Spurr. O título, lançado em janeiro, faz parte do boom editorial a respeito do assunto. Nos próximos dois meses, serão publicados três importantes obras somente nos EUA. Nenhuma delas têm previsão de chegar ao Brasil.

As novidades vão de manuais práticos, caso de A Day in the Life of Your Brain (Um dia na vida do seu cérebro) e de How and Why We Dream (Como e por que sonhamos), a uma versão atualizada de The Dream Encyclopedia (A Enciclopédia dos Sonhos), de James Lewis, professor de filosofia da Universidade de Wisconsin-Stevens Point. Catorze anos depois da primeira edição, Lewis retoma o assunto para listar mais de 700 significados e histórias envolvendo sonhos, religiões e culturas distintas, além de apresentar estudos que apontam para a relação entre essas imagens e os problemas e ansiedades do cotidiano.

VESTIBULAR
Há pelo menos duas pesquisas nessa linha sob a supervisão de Sidarta. A primeira, conduzida por Rafael Scott, aluno do neurocientista e mestrando em psicobiologia, levantou o conteúdo dos sonhos de 94 estudantes que tentavam uma vaga na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Desse grupo, 27 vestibulandos entraram: 16 sonharam com a prova, 11, não. Entre as explicações levantadas por Scott para o resultado, a principal é que o sonho sinaliza a importância da prova para a sobrevivência social do aluno por meio do sistema de recompensa do cérebro. "Houve até quem sonhasse com a festa da aprovação."

Outro experimento também realizado por um aluno, André Pantoja, mobilizou 22 pessoas que jogam o violento game Doom. O objetivo do título é matar monstros usando armas capazes de explodir os adversários. Novamente, quem sonhou com o jogo obteve melhores resultados. "Nossa conclusão preliminar é que existe uma correlação entre a melhoria no desempenho e a intensidade do sonho relacionado ao jogo", diz Sidarta. Ou seja, sonhar dormindo aumenta as chances de realizá-los quando estamos acordados.

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A relação não acontece por acaso. O especialista tem proposto nos últimos anos que a única maneira para entender a função dos sonhos é estudá-los quando os seres humanos estão diante de situações semelhantes àquelas vividas pelos nossos ancestrais. "O Doom e o vestibular são tentativas de estudar o sonho em um contexto de alto estresse. Os sonhos na vida contemporânea não revelam sua função porque a gente não enfrenta os problemas de 10 mil anos atrás. Se eu estiver com fome, vou a um restaurante. Para ter onde morar, basta possuir dinheiro para o aluguel."

Isso também explicaria os sonhos que não fazem nenhum sentido. Sem grandes problemas para resolver, o homem moderno tece uma colcha com pedaços de memória do cotidiano. Sem precisar lutar por comida ou abrigo, os sonhos modernos perdem sentido.

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