10 de set de 2010

ALÉM DO ESPIRITISMO, A CIÊNCIA DO SONHO - Parte 4

QUATRO ANOS E OITO MESES
Nossos processos de pensamento trabalham 24 horas por dia. A atividade da mente não é interrompida quando dormimos. Durante o sono, ela começa a selecionar quais informações guardaremos na memória de longo prazo e o que será descartado.

"Aparentemente, os critérios de seleção estão baseados em valores emocionais para a autopercepção, nossa ideia de quem somos e quem desejamos nos tornar", diz Rosalind Cartwright, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Rush, em Chicago, e autora de mais 200 artigos e três livros sobre o tema.

O sonho toma entre 20% e 25% do sono. Supondo que dormimos durante 8 horas, o brasileiro, que segundo o IBGE tem uma expectativa de vida de 72,5 anos, passará 4 anos e 8 meses sonhando. Quem manda no cérebro durante esse tempo todo é o sistema límbico, que engloba estruturas como o hipocampo e a amígdala. Elas estão relacionadas à construção da memória, à resposta a agressões, ao medo e ao impulso sexual.

Segundo Rosalind, qualquer experiência que tivemos durante o dia que seja relevante aos nossos valores é reativada e conduzida para o hipocampo e o neocórtex. Quando o sono REM começa, ele transfere essa informação para a memória, procurando por experiências parelhas. "Isso forma a base do sonho", afirma Cartwright. Ou seja, o sonho é uma mistura de imagens novas e antigas relacionadas a aspectos importantes de nós mesmos. Essa mistura é que muitas vezes torna os sonhos estranhos e surreais, como padronagens sobrepondo-se umas sobre as outras, em vez de uma história com começo, meio e fim.

A HORA DO PESADELO

Os mecanismos que desencadeiam os pesadelos se parecem com os dos sonhos. Ativam as mesmas áreas do cérebro, mas acionam circuitos diferentes. Uma pesquisa da Universidade de San José, na Califórnia, sugere que o estresse tem um papel importante nesse processo. Além disso, afirmam que os sonhos ruins possuem uma função benéfica.

Os pesquisadores dividiram os entrevistados em três grupos, de acordo com a frequência e intensidade de seus pesadelos, e avaliaram cada um em relação a fatores de estresse presentes no dia a dia. O resultado foi que aqueles que tinham mais pesadelos conseguiam lidar melhor com as dificuldades diárias, sugerindo que esse tipo de experiência proporciona mais jogo de cintura na hora de encarar os problemas.

Para Rosalind, os pesadelos ocorrem quando sentimos alguma emoção muito intensa, inesperada ou desafiante, sem nenhuma situação correspondente ou similar na memória de longo prazo para ajudar a processar aquela informação. "Isso chama a atenção da mente consciente para um grande problema a ser resolvido", afirma.

Um trabalho liderado pela professora avaliou os sonhos de pessoas com diagnóstico de depressão. Aqueles que tiveram mais pesadelos no início do sono tinham uma probabilidade maior de estarem com os sintomas da doença controlados depois de um ano, em comparação com os que tiveram mais sonhos negativos no final da noite. Para ela, isso indica que os pesadelos que ocorrem no início do sono estão prestando esse serviço de regulação do humor e alívio do estresse, enquanto que o pesadelo tardio pode indicar uma falha nesse processo.

Mas, é claro, sonhar é melhor que ter pesadelos. Em outro estudo, Rosalind realizou testes com pessoas que estavam se divorciando. Aqueles que tiveram mais sonhos positivos com o ex-cônjuge eram também os que estavam lidando melhor com o estresse da separação, sinal de que a qualidade do sono pode ser um reflexo do estado de espírito da pessoa ou uma maneira de "calibrar" a relação.

Geralmente é quando os eventos do dia causam uma ansiedade ou excitamento emocional que os sonhos nos mostram como nós estamos refletindo sobre tais questões. "Não quer dizer que temos que prestar atenção ao significado do sonho ao acordar. Eles cumprem sua função quer prestemos atenção neles ou não", diz Cartwright. Ou seja, mesmo que você não ligue muito para o que acontece durante o sonho, eles estão trabalhando duro para colocar seus pensamentos em ordem.

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Ainda de acordo com Cartwright, aplicar na vida real o que acontece quando se está dormindo depende de entender os seus próprios sonhos. Essa linguagem não tem nada a ver com dicionários de simbologia, daqueles que associam sonhar que perdeu um dente com a morte de um conhecido e que uma cobra é sinônimo de traição.

Esse entendimento é pessoal, baseado em um sistema de códigos individual, formado pelas experiências de vida de cada um. Aí cabe a você analisar seus medos, desejos, decepções, e tentar adaptá-los ao que sonhou na noite passada. No processo, quem sabe, pode vir à luz mais um clássico da canção ocidental. Se isso não acontecer, é no mínimo reconfortante saber que a ciência está caminhando para desvendar o modo como a cabeça de Paul McCartney funcionou naquela manhã de 1964. Para os cientistas, o sonho não acabou.

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