7 de out de 2010

A CURA: OITAVO CAPÍTULO E ENTREVISTA COM CARMO DALLA VECCHIA


Carmo Dalla Vecchia coleciona papéis de conquistador. Mas foi justamente na pele do maltratado Silvério da série A Cura que o ator parece ter vivido seu grande êxtase na TV. Tanto que ele não economiza palavras ao descrever o quanto se surpreendeu com a imersão que realizou no universo do minerador mal-encarado. A ponto de sofrer fisicamente ao se aproximar a data de se ver no ar. "Na véspera da estreia, molhei oito camisas tentando dormir, mas não conseguia. Cheguei a medir a temperatura, mas estava em 37º. Era tudo psicológico", contou o ator, que emagreceu 15 quilos para as gravações.

A experiência mexeu com Carmo, mas esse frisson já tem data certa para acabar. Depois que o último episódio de "A Cura" for ao ar, em 12 de outubro, o gaúcho sai de férias. Na volta, já começa a se dedicar a um novo trabalho: protagonizar, ao lado de Paola Oliveira, o próximo folhetim das 18 horas da Globo, com assinatura de Duca Rachid e Thelma Guedes. "Fico feliz que elas tenham gostado do meu trabalho em 'Cama de Gato' a ponto de confiar esse posto a mim. Gosto de estabelecer parcerias com as equipes que funcionam. E foi o caso ali", analisou o ator, que interpretou o aventureiro Alcino na primeira experiência das autoras em uma trama original.

Você se despiu da vaidade para interpretar o Silvério de A Cura. O que isso trouxe para sua composição?
Uma liberdade incrível, a possibilidade de fazer um personagem sem aquela preocupação de fazer as pessoas quererem levar você para a cama. E, com isso, se concentrar exatamente na história que deve ser contada e no tipo que você tem de construir. A televisão lida com a imagem e você tem de ter um apego a esse detalhe, porque as pessoas gostam daquilo que estão vendo. Com o Silvério, não, ele conta o lado mais repugnante da história. As pessoas não me reconheciam nas ruas. Aconteceu até de eu sair em São Paulo e ouvir "ih, olha aquele ator da Globo!" e um outro falar, ao lado, "que nada, é só um mendigo".

Esse foi o ponto alto da minissérie para você?
Confesso que não ter de aparecer atraente foi bem motivador. Tem um lixo que dá para colocar para fora e é gostoso exercitar isso. Todas as cenas do Silvério tinham essa questão simbólica do passado. Elas foram guiadas por ações fortes, representativas do mal e daquela época. Tanto que o Silvério não é um vilão de época, porque era assim que acontecia. Foi um grande prazer exercitar esse desapego.

Quando tinha sido seu último trabalho de época?
Só fiz época em Engraçadinha - Seus Amores e Seus Pecados, que era na década de 50, 60. Nunca trabalhei em tramas passadas em séculos diferentes.

Mas você fez um 'Linha Direta Justiça' especial sobre um casal de açougueiros que, supostamente, seria canibal e morava no Sul do país, em 1863...
Nossa, é verdade! Tá, ali foi uma experimentação do que, depois, seria o Silvério. Era uma coisa engraçada porque aquele açougueiro comia as pessoas, literalmente. Mas o Silvério é muito mais elaborado. No Linha Direta era quase uma lenda, a história nunca foi comprovada. Tanto que até hoje brincam muito lá com as crianças, dizem "olha que eu vou chamar o açougueiro para te pegar".

Que referências você buscou para construir o Silvério?
Tem um livro do Sérgio Buarque de Holanda chamado Caminhos e Fronteiras que li e foi muito importante nesse trabalho. Ele fala sobre o emparedamento, as unhas grandes, o sacrifício, a aparência depauperada, o descuido, até a doença que ele tinha e que matava muito fácil na época. E olha só que curioso: há pouco tempo, uma médica me deu o nome da doença do Silvério, aquela que onde alguém toca, vira uma ferida. Chama-se epidermólise bolhosa.

Você falou do aspecto descuidado, do quanto foi bom se despir de qualquer vaidade, mas assim que as gravações acabaram, voltou para a cara de galã de antes. Por quê?
Adorei passar pela experiência, mas não acho que meus últimos papéis tenham sido de galãs. Aliás, eles até tinham um apelo de conquistador, de uma boa aparência, mas sempre com um pé quebrado. Em Engraçadinha, era um filho apaixonado pela mãe; em Cobras & Lagartos, era um desmemoriado; em A Favorita, o Zé Bob era meio justiceiro, repórter de jeans e camiseta, o charme dele era o lado largado. E, em Cama de Gato, o cara descobria, no primeiro capítulo, que ia morrer. Mas eu não tenho essa vaidade de roupa, de maquiagem. Nunca vão me ver brigando por uma peça de indumentária nova. Minha função não é essa. Eu me entrego demais aos personagens. Às vezes, até sofro por isso.

Como?
Por exemplo, a questão de emagrecer tanto para fazer A Cura e trabalhar sentimentos tão fortes quanto a cobiça, a inveja e o ódio que tem daquele menino, o Ezequiel (vivido pelo ator Dyjhan Henrique), que é capaz de curar qualquer um, menos o Silvério. Comecei a sonhar que eu estava assassinando pessoas. E eu, no próprio sonho, questionava o que estava acontecendo e por que fazia aquilo. Saía das gravações com dores nas costas. A postura do Silvério era completamente diferente. Sempre o imaginei meio que em forma de gafanhoto, por isso emagreci 15 quilos.

Hoje, depois de terminar as gravações e ver quase todos os episódios no ar, que balanço você faz de 'A Cura'?
É uma série muito ousada por se propor - e isso eu acho genial e inusitado - a ser um seriado semanal com uma história que não se encerra em cada capítulo. Para entender o texto, é preciso acompanhar os nove episódios. Não é como Os Normais ou A Grande Família. Acho isso demais porque as pessoas estão começando a se ligar agora nesse mercado aqui no Brasil.

* * *

Vida cigana
Carmo iniciou seu trabalho na TV como modelo. Na época, sonhava em brilhar no mercado internacional, mas os convites cada vez mais o direcionavam para a carreira de ator, já que sempre recebia textos para decorar. Não demorou para que ingressasse na Oficina de Atores da Globo. Foi o suficiente para conquistar seu primeiro papel na TV, na minissérie Engraçadinha - Seus Amores e Seus Pecados. Tudo porque foi chamado para ajudar no teste da atriz que faria o papel principal. "Acho que curtiram meu trabalho, porque me chamaram para fazer o filho dela na segunda fase", recordou o ator, que encarnou o ciumento Durval.

A estreia promissora, emendada com um papel de destaque em Cara & Coroa, em 1995, logo deu espaço a uma trajetória inquieta na TV. Sem perspectivas na Globo, Carmo passou a viver uma rotina de nômade pelas emissoras. Gravou Perdidos de Amor, na Band, em 1996, e migrou, em seguida, para a Record, onde participou da minissérie Canoa de Bagre. Em 1998, retornou à Band para interpretar o boa pinta Silvaninho em Serras Azuis. De lá, fechou com o SBT e integrou o elenco da novelinha infantil Chiquititas Brasil. A receptividade na emissora de Sílvio Santos foi suficiente para que o ator emendasse esse trabalho com um novo personagem, desta vez em A Pícara Sonhadora. Só em 2003, Carmo retornou para a Globo com um papel fixo, na minissérie A Casa das Sete Mulheres. "Ali, a minha situação começou a melhorar bastante", lembrou.

Chegou até a fazer um teste para interpretar um vilão em Da Cor do Pecado, de João Emanuel Carneiro, na Globo, mas perdeu o papel para o então estreante Guilherme Weber. Com isso, um convite tentador levou o rapaz de volta ao SBT, integrando o elenco de Seus Olhos, em 2004. Mas, pouco tempo depois, no mesmo ano, já estava gravando Começar de Novo, na Globo, emissora da qual não saiu mais. Entre participações em programas como Linha Direta e outros da linha de shows, Carmo começou a decolar para valer ao ser escalado para encarnar o misterioso Luciano em Cobras & Lagartos. Se deu bem, assinou contrato com a emissora e, desde então, já protagonizou A Favorita e Cama de Gato. Mas ainda se sente inseguro em relação ao mercado. "Durante muito tempo, ainda vou depender do meu último trabalho para ser chamado para outros papéis de peso. É um caminho natural na vida dos atores", analisou.




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