8 de dez de 2010

HISTÓRIA DE VITOR : EM BREVE CONTINUAREI...

'Minha história ainda não terminou, só que ainda não escrevi'
 

Trecho do relato "A História de Vitor", um comovente depoimento do menino Vitor Lovison do Amaral, cuja história de apenas 12 anos (interrompida por um câncer) não o impediu de dar uma verdadeira lição de vida. A obra não se trata de literatura, mas de fato real, escrito por ele mesmo durante o curto período de 17 meses entre a descoberta da doença e sua partida. Segundo o pai, Carlos Alberto do Amaral, "Vitor apesar de sua doença e da situação de cadeirante a que ficou submetido, nunca reclamou e nem mesmo se revoltou com Deus ou com quem quer que seja". E conclui: "Sua passagem foi serena. Quando ele partiu se encontrava em seu quarto, em sua cama e, ao lado das pessoas que mais o amaram nesta vida. Foi um exemplo de vida e fé a ser seguido por todos que amam a vida." Suas últimas palavras, gravadas na porta de seu quarto, foram escritas com adesivos e foram: “Acreditem em si mesmo” e “Eu amo minha família”.

O blog Partida e Chegada publica, semanalmente, trechos desse diário infantil como incentivo a essa filosofia e firmando, uma vez mais, nossa certeza de continuidade da existência.

* * *
'Resolvi criar codornas...'

Não foi fácil ficar internado desta vez, pois tive que ficar deitado o tempo todo. Meu passa-tempo era assistir televisão. Recebi muitas visitas quando estava internado, lá estiveram minhas tias Ana Lúcia, Luciana e Vânia, meus tios “Beto”, Zézito e Marcel, meus primos Mateus, Murilo, Daniel e Ana Amélia. Também estiveram lá meus avós José e Maria. Vanderlei, Vera, Vilma e Tiago também foram me visitar. Minha mãe me visitou todos os dias e, ficou comigo duas noites. Meu pai e uma enfermeira de nome Nivia que lá trabalha, foram convidados por um casal (João e Silvana) para que fossem padrinhos de batizado de seu filho André de apenas quatro meses, que lá estava internado por cirrose hepática.

Não fui no batizado pois, como já tinha permissão para deixar o quarto, nessa hora eu estava na escolinha de informática de lá, mas sei que o batizado foi feito por um padre e foi realizado no quarto em que André estava internado. Os médicos das dores, Drs. José Pedro e André também iam me consultar todos os dias e, também iam nutricionistas, fisioterapeutas e médicos plantonistas. Um fato muito engraçado aconteceu comigo quando lá estive internado, pois um médico radiologista que disse ser corintiano foi até meu quarto, perguntou se eu me chamava Vitor, perguntou também que time eu torcia e, eu disse a ele que era palmeirense e, então, ele disse brincando que só ia realizar aquele exame de encéfalo em mim porque eu era palmeirense. Como eu estava meio sonolento, ele perguntou para minha mãe se eu tinha tido convulsão e minha mãe disse que não e, ficou sem entender nada, até mesmo a enfermeira Nivia que estava trocando meu soro naquela hora, não notou que o exame estava sendo feito na pessoa errada, ou seja, o Vitor que iria fazer aquele exame não era eu e sim um outro Vitor que também lá estava internado, em outro quarto. O exame foi feito em mim por uma máquina, ele colocou vários fios em minha cabeça. No final de tudo, não ficamos sabendo do resultado, é mole.

Minha avó Maria, mãe do meu pai, recebeu noticia do médico do hospital de Botucatu que, iria ser internada na terça-feira, ou seja, no dia 14 de maio para ser operada no dia seguinte. Meu pai me disse que minha avó ia ser operada de chagas no intestino. Meu pai me contou também que chagas é uma doença que as pessoas que moravam em sítios, em casas de madeira ou de barro, eram picadas por um bicho de nome barbeiro, que transmitia essa doença (chagas). Fiquei sabendo que minha avó tinha feito a cirurgia que demorou horas e, não passou bem na cirurgia, pois demorou para se recuperar.

No dia 20 de maio, como eu já estava bem melhor, recebi alta e voltei para minha casa, mas minha avó ficou lá se recuperando. Após alguns dias ela teve complicações e novamente teve que fazer uma nova cirurgia, agora de emergência. Minha avó ficou de coma induzido, pois teve uma infecção generalizada. Ela ainda passou por uma terceira cirurgia devido a uma nova complicação e, após, foi transferida para a UTI daquele hospital, onde ficou em recuperação.

Dia 3 de junho, voltei com meus pais e minha irmã para o hospital de Botucatu para retorno com a Dra. Lied que, após me consultar, disse que iria mandar um enfermeiro tirar minha sonda para ver se eu conseguia fazer xixi normalmente. Foi o enfermeiro “Chico” que tirou minha sonda e, após, voltamos para nossa casa. Como é gostoso ficar sem a sonda. Graças a Deus, aos poucos, comecei a fazer xixi normalmente. Minhas pernas continuam repuxando sem eu querer, não dói mas me incomoda, tomo remédio para isso mas ele não faz muito efeito. Não sinto nenhuma dor, aos poucos vou voltando ao normal. Passeio com minha cadeira de roda em vários lugares desta cidade. Vou sozinho até a casa de minha avó, mãe da minha mãe.

Dia 11 de junho fomos até Bauru onde fiz uma nova ressonância, onde ficou constatado que o tumor tinha diminuído, ficamos felizes e aproveitamos para almoçar no Shopping. Parei de tomar morfina no dia 12, pois graças a Deus eu não estava mais sentindo dores e, também parei de tomar o Decadron, Omeprazol e Humectol D.

Resolvi criar codornas num viveiro que meu avô tinha em seu quintal. Comprei quatro codornas a R$ 2,50 cada, com o dinheiro que eu ganhava com as vendas de meu livrinho. Comprei também o bebedouro e ração para elas. Eu fiquei responsável de cuidar das codornas, mas os dias estavam muitos frios nesta época e, como eu acordava muito tarde, meu avô achou melhor me dar o viveiro de presente para mim e, então, meu pai, meu avô, meu tio Ismael e o amigo do meu pai que tem uma camioneta e que se chama “Índio”, trouxeram o viveiro até minha casa e ele foi colocado no fundo do meu quintal com as minhas quatro codornas. Como o viveiro era grande, meu pai então comprou mais codornas, elas começaram a botar.

Dia 18 de junho retornei ao Hospital de Botucatu para a Dra. Leid me examinar e, como eu tinha ficado muito ruim com a ultima quimioterapia, ela disse que eu iria fazer esta nova quimioterapia via oral com comprimidos e, então me passou sete comprimidos de nome Vepesid, eram enormes, pareciam ovos de codorna, só faltavam as pintinhas pretas. Comecei a tomar tais comprimidos no dia 23 e era um por dia, eu tomava a noite antes de dormir. Os comprimidos me deixavam com o estomago ruim e sem fome, as vezes eu vomitava um pouco.

Ganhei um computador usado de uma empresa de São Paulo, de nome Rotife, a qual meu pai tinha há tempos mandado um e-mail pedindo um computador para mim. Eles trouxeram o computador em minha casa e, como eu já tinha um computador, este ficou para minha irmã Vivian.

Dia 11 de julho, novamente o médico da Argentina e sua esposa estiveram em minha casa, ele me consultou e, deixou mais remédios parar eu tomar, disse que meu tratamento estava indo bem e que era para eu continuar.

Meus pais me levaram na cidade de Bauru fazer uma nova ressonância magnética (Craniana e Cervical) e levamos a Patrícia que trabalha em casa junto, pois ela nunca tinha ido para Bauru, fiz a ressonância no CDI e depois fomos para o Shoping passear e, em seguida, assistimos um filme super legal em um dos cinemas do Shoping e, depois, fomos até o Mac Donalds comer um lanche e como já era noite, voltamos para nossa cidade. Apesar de fazer a ressonância, foi uma viagem legal pois divertimos muito.

Minha história ainda não terminou, tem mais ainda, só que ainda não escrevi.

Em breve continuarei!

Vitor Lovison do Amaral

4 Comentários:

Anônimo disse...

Oi..lendo estas histórias tão fortes nao poderia deixar de comentar sobre a minha tbm...perdi meu esposo aos 37 anos...fiquei com dois filhos lindos, meu amor se foi e foi tão... rápido.Resistiu bravamente, foi corajoso...sorriu ate o último momento...acreditem.

Anônimo disse...

meu filho tambem era vitor ,se foi aos 24 anos vitima de cancer de lingua com metasteses no pulmao ,eu conpartilho com a sua dor.

Anônimo disse...

Como é bom saber que mesmo no sofrimento da doença esses guerreiros nuncam perdem a fé em Deus. Perdir uma amiga que muito amava de cancer no estomago, digo a todos que Deus me deu o maior presente de minha vida que foi conhece-la. Sei que sentirei saudades, mas os ensinamentos de vida por ela deixado estará sempre em meu coração.

Alex

Anônimo disse...

Fui casada durante 36 anos. Nadei em águas tranquilas com meu marido e filhas. Fomos tão felizes, os anos passaram e eu não percebi. Ele se foi, me deixou bem financeiramente, tenho tudo, não falta nada. A felicidade foi trocada pela saudade que apavora, não é o medo de ficar só eu não tenho, é lembrar como ele era feliz
em casa com seu sorriso cativador com sua mão forte nos protegendo, como éramos felizes.

O que me faz ficar feliz é que um dia irei encontrá-lo, espero que ele venha me dar sua mão
para ajudar-me a passar para o seu lado e sermos felizes novamente.
Sandra

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