10 de ago de 2011

UM LIVRO SOBRE O AMOR E A PERDA


Cris e Gui tinham muitos planos. Ele iria pintar o quarto do filho que crescia na barriga dela. Ela escolheria as cortinas. Tirariam fotos quase que diárias para registrar aquele milagre. Sempre que pudesse, ele passaria um tempo na cozinha, preparando afagos para os mais queridos. Ela ficaria por conta das piadas. Aos sábados, comeriam feijoada no Baltazar. E haveria presentes fora de hora, jantares a dois, e-mails carregados de carinho.

Depois que Francisco nascesse, ele o faria dormir, ela o acordaria com beijos. Iriam fazer uma viagem de navio, providenciar uma cota do clube, construir uma casa na Serra do Cipó. E um dia, comprariam uma casinha bem bonitinha para reformar e morar. Ficariam velhinhos nela, mas dançariam no meio da sala até que as pernas agüentassem.

Francisco nasceu no dia 21 de março de 2007, dois meses depois da morte de Gui.
Cris e Francisco

Para dar conta do que sentia, Cristiana Guerra começou a escrever. Tinha uma urgência em falar para o Francisco sobre o seu pai. Tinha medo de esquecer. Mas fez isso da maneira como costuma levar a vida, sem pudor em se mostrar, e criou um blog. “Eu queria falar com meu filho, mas também precisava gritar para o mundo o tamanho da dor que estava sentindo”, conta Cris (ela prefere ser chamada assim) durante uma conversa sem cerimônias na última terça-feira.

“Para Francisco”, o blog, nasceu no dia 17 de julho de 2007: dois anos depois que Cris e Gui (ambos publicitários) começaram a namorar, um ano depois que ela descobriu a gravidez, seis meses depois que ele morreu. “Foi um processo curativo não planejado, mas perfeito. Encontrei uma maneira de manter o Gui vivo e, ao mesmo tempo, confrontar a dor que eu sentia”. Cris só não previa que encontraria eco em tanta gente. Não é raro encontrar entre os comentários relatos de quem leu o blog compulsivamente, “com o coração apertado, com os olhos cheios d’água”, como escreveu Carolina Arêas. Assim, os textos visitados por mais de 2.000 pessoas diariamente viraram notícia nas páginas dos jornais e revistas, ganharam matéria na televisão e chamaram a atenção dos editores de livros.

A capa incomum do livro
Este mês, “Para Francisco” chega às livrarias. Com 192 páginas, traz boa parte do que foi postado na internet, alguns textos inéditos e uma carta para Guilherme, “escrita de uma vez só”, como conta Cris. Ele mantém o formato do blog, com cartas que funcionam sozinhas como retratos de uma memória afetiva ou que podem ser lidas como peças de um quebra-cabeça sobre o amor e a falta. “Não podia perder o aspecto espontâneo do blog, queria respeitar o sentimento que existia no momento em que escrevia cada um daqueles textos”, diz.

Sobre o que há de novo para quem já acompanha o “Para Francisco”, Cris explica que são textos que existiam como esboço e que não tinham virado post. Depois que recebeu o convite da editora Arx, guardou uma coisa ou outra, mas nada que fosse urgente ser dito. “Não trairia Francisco em nome de um livro.” Sua maior preocupação na hora de escolher o que pôr, o que tirar, foi contar uma história que fizesse sentido “para quem está chegando.”

Sem ainda ter certeza de quem será seu novo público, ela confia que encontrará leitores que não têm o hábito (ou paciência) de navegar na internet. E aos 38 anos, Cris tem certeza que começou uma nova profissão. “Sei que vou continuar escrevendo. É claro que é um aprendizado, mas estou exercitando.”

Michele Borges da Costa
Livro: para Francisco
Autora: Cristiana Guerra
Editora: Arx-Siciliano

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