7 de ago de 2012

ENTREVISTA COM JOSÉ MEDRADO

José Medrado
Nossa entrevista focaliza o médium e orador espírita  José Medrado,  um baiano nascido, criado e residente na capital Salvador. Medrado conheceu o Espiritismo aos 15 anos mas desde os sete convive com a mediunidade, que,  ao longo do tempo,  se manifestou pela pintura, escultura, psicografia e até de  efeitos físicos. É fundador e presidente da instituição Cidade da Luz onde são desenvolvidas várias atividades de assistência, promoção e divulgação da doutrina espírita. O entrevistado tem proferido palestras pelo Brasil e  exterior, é articulista de jornais e participa de programas de rádio e de televisão.

Medrado poderia nos fazer sua apresentação pessoal? 
Ismael, sou José Alberto Lima Medrado, nascido a 27 de fevereiro de 1961, filho de uma família que era católica. Minha mãe órfã, (Romana Lima Medrado) nasceu em Pernambuco, mas viveu em Minas Gerais, quando casou com meu pai (Arlindo Medrado Martins), baiano e veio  para a Bahia. A história da família de meu pai é um pouco triste, pois ele é produto de um adultério da mãe, o que o marcou muito. Nota-se que ele usou como sobrenome em nós o da mãe, não o do pai, como era de se esperar, mas, exatamente, porque o marido de sua mãe não era o seu pai. Só soube disso há pouco tempo, antes do seu desencarne. Ele constituiu outra família, o que foi motivo de grande sofrimento para minha mãe. Eles nunca se separaram, mas ele trabalhava em outra cidade e aparecia nos finais de semana, ou de quinze em quinze. Ele era operário, foi motorista de ônibus, caminhão... Período muito duro, onde passamos todo o tipo de privação, fome mesmo, pois minha mãe não tinha ninguém, principalmente na Bahia. Somos três, eu e mais dois irmãos. Tivemos que começar a lida muito cedo. Eu comecei a lavar carro dos outros com dez anos, em um dos cartões postais da Salvador – perto do Elevador Lacerda, idem meu irmão mais velho. Aos 14 anos, fui aprovado em um concurso que existia aqui em Salvador, uma parceria entre o Banco do Brasil e as escolas públicas; os melhores alunos faziam este concurso, para menor estagiário. Passei e comecei no banco com 15 anos até os 18. Meu irmão mais novo também nos ajudava lavando carro; por ser menor, ele ficava responsável pelas rodas e tapetes. Tivemos uma infância de muita tristeza, mas com um esteio extraordinário, nossa mãe. Mulher de grande fibra e honradez. Vivíamos em uma zona de prostituição e droga, aqui de Salvador, a Ladeira da Preguiça, mas ela soube nos conduzir de forma tal que nenhum de nós sequer fumou cigarro, também não bebemos.

Qual a sua formação acadêmica e profissional?
Fiz Letras Vernáculas na Universidade Católica do Salvador, onde também estudei Filosofia;  Mestre em Família na Sociedade Contemporânea, também na Universidade Católica de Salvador. Sou funcionário público federal concursado, há 31 anos, do Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região, no cargo de Analista Judiciário, exercendo a função de Diretor de Projetos Especiais. 

Como você conheceu o Espiritismo e desde quando se tornou Espírita?
O Espiritismo eu conheci aos 15 anos; desde os 7, fenômenos mediúnicos me buscavam, o que achava normal, até quando  percebia que meu pai, descontente com as minhas visões, afirmava que não era coisa boa – ele era católico muito ignorante – fiquei sem entender o meu processo até quando um professor do Colégio da Polícia Militar (estudei minha vida toda aí, saindo só para a Faculdade), Benedito Araújo, conversando sobre sintomas da mediunidade eu me identifiquei. A partir daí, fui ao Centro e comecei o meu trabalho mediúnico em um conhecido centro daqui de Salvador, conhecido como o Centro de Arapiraca. Com 17 anos, eu, esse professor e mais cinco pessoas fundamos um Centro, que deu origem ao hoje Complexo Cidade da Luz, que estou à frente desde então.

Poderia nos descrever sobre as faculdades mediúnicas de que é dotado e de que forma elas se processam? 
Guardo um trabalho bem diversificado nesta área, um pouco de cada expressão. Na sua maioria semiconsciente ou consciente. Não concebo que exista mais o exercício inconsciente ou mecânico nos dias atuais, a dinâmica da vida esterilizou tal processo.

Você participou de reuniões de materialização? 
Um conhecido jornalista e pesquisador espírita daqui da Bahia, Carlos Bernardo Loureiro e a sua então esposa Lúcia me convidaram para participar de um grupo de pesquisa em um laboratório que eles montaram em sua casa. Fiz essas reuniões por cerca de três anos, com muito bons resultados no campo da materialização, transportes, cheiros...

Ainda protagoniza esses fenômenos?
Sabemos que a mediunidade é orgânica e, como tal, com o tempo vem o seu declínio, assim não conseguiria, acredito, mais produzir materializações, mas ainda hoje cheiros tenho conseguido, certamente com o maior trabalho dos espíritos.

E sobre  pintura mediúnica desde quando a exercita?
A pintura veio dessa época das materializações, pois como médium de efeitos físicos os espíritos achavam que poderiam utilizar esta faceta para facilitar na não mesclagem das tintas, já que trabalho com óleo. Isso remonta ao ano de 1988. Foi um período de muita dificuldade, pois não tínhamos como sustentar o orfanato do Centro, precisando sair pelas ruas pedindo. Foi quando Renoir me apareceu e disse que queria “transformar tintas em pães” para nos ajudar. Relutei. Nunca tive talento artístico algum, o que é a minha frustração, mas pela insistência fiz o teste e temos este compromisso até hoje.

O orador José Medrado na Cidade da Luz. Salvador, BA
Quais os pintores desencarnados que já participaram desse trabalho?
São mais de 100, concentrando-se nos impressionistas, mas passa pelos Renascentistas, chegando nos pós-modernistas. Renoir é o seu coordenador.

Recebemos informações que você tem executado esculturas mediúnicas. Pode-nos dizer como ela se processa?
Lá atrás, em 1988, Aleijadinho (ainda que pese controvérsia sobre a sua existência) se comunicava e fazia desenhos sacros em carvão. Sumiu, parecendo-me só esporadicamente, até que, em maio último, disse que gostaria de criar comigo uma técnica única que ele chamou de Modelagem-escultura policromada com efeito de antiguidade, mas já estão nesse grupo Renoir, Gauguin, Degas, que também fizeram escultura em suas vidas físicas.

Quem as assina?
Desses que nomeei acima, em verdade, só Aleijadinho, Gauguin e Renoir fizeram até agora. Foram três feitas.

Suas pinturas e agora esculturas já foram analisadas por críticos especializados?
Essa questão é muito complexa, pois raramente um crítico irá dizer que, de fato, é de quem assina, se, efetivamente, ele for agnóstico ou mesmo ateu. Seria abrir mão de toda a ausência de uma crença de vida para afirmar tal coisa. Isso não existe. Até hoje, há críticos que não aceitam o Parnaso de Além Túmulo do inigualável Chico. Mas, efetivamente, colocamos, antes de fazermos publicamente a pintura, à consideração de críticos de artes e professores da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia e o resultado foi muito satisfatório, tendo inclusive a profa. Matilde Matos que é membro do Conselho Mundial de Críticos de Arte feito um bonito artigo no Jornal da Bahia, na época. A primeira escultura foi analisada por um professor de artes, com muito bom conceito, em uma rede social, e ele chegou a chamá-la de extraordinária, mas é espírita.

Quais países já visitou se apresentando para a pintura e para conferencias?
Vou anualmente, em rodízio, em período de férias profissionais, mais recentemente, a Inglaterra, Escócia, Holanda, Finlândia, França, Suíça, Suécia, Dinamarca, Alemanha , já tendo ido a Itália, Portugal, Espanha, Bélgica, Argentina, Portugal, Colômbia, Peru, Guatemala, Honduras e Venezuela. Tenho dado preferência a convites não-espíritas, primeiro porque entendo que seja mais interessante divulgar o Espiritismo onde ele não é conhecido, pois espírita já sabe o que eu sei, razão pela qual tenho estado muito com as Igrejas Espiritualista da Grã-Bretanha, depois porque espíritas não me convidam muito, talvez por preconceitos (risos).

Esculturas mediúnicas, por José Medrado
Medrado, faça-nos por favor uma retrospectiva de sua atuação no movimento espirita em geral. 
Poxa! É muita coisa. Sou um espírita meio rebelde, pois sendo da terra de Divaldo Franco nunca o imitei, e isto foi e é motivo de resistência ao meu nome, pois tenho um estilo muito próprio de pregar, de falar. Entendo o Espiritismo como consolador, e consolar só vejo com alegria, música. Falei acima que fundei o Centro com 17 anos e este que dirijo até hoje com os meus 51 anos, portanto 34 anos. Fica mais fácil acessar o site para ver as frentes de trabalho (www.cidadedaluz.com.br). No ano passado, fizemos mais de 240 mil atendimentos sociais. Guardo a satisfação de algumas inovações, como usar música popular nos Centros Espíritas; não era comum, pois as clássicas e de origem espírita eram as usadas; de empreender um ritmo com menos ênfase na oratória, indo mais para o coloquial...Tenho também a alegria de ter sido o espírita com mais tempo de programa de televisão aberta, pois fiquei 17 anos interruptos na Bandeirantes da Bahia, deixei há pouco tempo, por absoluta falta de tempo. Ou ficaria gravando a Bandeirantes ou para a Rede Mundo Maior, que estou desde a sua fundação. Optei pela Mundo Maior, pois já tenho um programa de rádio há 11 anos na FM de maior audiência da Bahia, Rádio Metrópole de Salvador; então já falo para os não espíritas e pela Mundo Maior vou aos espíritas.  Escrevo toda semana para o maior jornal do Norte e Nordeste do Brasil (A Tarde), uma semana na Coluna Religião, na outra Coluna Opinião, nesta última dando, pelo nome, minha visão de mundo e dos acontecimentos.

A que atividade tem se dedicado mais intensamente? 
É tudo junto.

Como concilia o tempo para seu trabalho profissional, administração das casas que dirige e os convites para pintura e conferencias?
Uma correria sem fim. Já comecei a pisar no freio, pois hoje, pela tecnologia atual, você não precisa estar no local para ser visto e/ou ouvido. Às terças-feiras, por exemplo, as minhas palestras na Cidade da Luz são passadas pela internet, e vemos que pessoas assistem, de quase todo o Brasil e de muitos países. Você é um exemplo disto. Faz é tempo que você me mandou estas perguntas, mas não tive tempo de responder, com este feriado de Corpus Christi eu não viajei, pois tinha um compromisso com Júnior Cigano, este campeão de luta. Irei daqui a pouco (sábado) fazer um talk show com ele questionando se é esporte ou violência o MMA.

Medrado fale-nos um pouco da Cidade da Luz. Como se deu a sua origem e sua finalidade. 
Como tive uma infância com muita dificuldade, com privações de toda natureza, sempre acalentei o ideal de ajudar outras crianças a não passarem o que eu passei. Assim, contando com o aval da espiritualidade, eu e os companheiros nos lançamos a essa empreitada que é um orgulho bendito, pois, no ano passado, fizemos mais de 240 mil atendimentos sociais. A nossa Instituição estava em pontos diferentes em termos de área física, então, resolvemos centralizar em um único local, mantendo um núcleo assistência em um bairro mais afastado.

Você tem livros escritos? Quais?  
Tenho psicografado quatro e recebendo um romance. Será o primeiro neste estilo.

Como você tem enxergado o desenvolvimento do movimento espirita na atualidade? 
Honestamente e sem demagogia? Pois bem... tenho visto com um misto de lamento e preocupação, pois vejo que ele não está se atualizando em suas propostas, mesmo estando no século XXI. Não falo em atualizar conteúdo, claro que não. Falo na vinculação à sociedade. Não o vejo alcançando o grande público. As Casas Espíritas estão envelhecendo com os seus dirigentes e não se modernizam. Onde estão os jovens? Não os vejo mais nos Cetros, de um modo geral pois, na Cidade da Luz, pode-se vê-los nas terças pela internet, então em outros também deve haver... mas os filhos dos espíritas não estão nos Centros, não estão buscando as lideranças, não estão guardando interesse. De um modo geral, o Espiritismo é divulgado para espírita, não para os leigos. Os eventos de federações não são para o grande público, são para os espíritas dos Centros. Precisamos formatar com modernidade o nosso conteúdo, que é fantástico. Por outro lado, ainda, infelizmente, vemos um movimento muito politizado – da pior forma possível – onde se disputa tudo: popularidade de casas, de médiuns, de oradores; onde se discrimina; segrega; estiola. Falo por experiência própria e pelo que me chega e vejo. Não vejo mais aquela fraternidade que se percebia na década de 80, onde, pelo menos na Bahia, um Centro aniversariava, por exemplo, os outros iam naquela noite se confraternizar... era algo muito bonito de se ver. Hoje, não, cada um fazendo o seu trabalho, fomentando o ciúme. Se um centro faz algo, o outro não divulga, ou então sabota. Gente, infelizmente, é isso, por mais doído que seja, mas não acredite no que eu falo, lembre aí, você, leitor, da sua Casa... e me contradite, se for possível. É isso. Todavia, como a evolução é obra pessoal e intransferível... vamos lá.

A palavra para algo mais que queira acrescentar?
Nada em especial, apenas que, quando as pessoas me criticam pelo meu jeito de ser, pregar, estão esquecendo de princípios básicos da doutrina espírita: a individualidade do espírito e o livre arbítrio. Será que o meu jeito é tão danoso assim, a que ou a quem? Será que, para alguns, esse jeito anula tudo o que faço com os amigos, com a espiritualidade, na Cidade da Luz??? Os números dizem o contrário, a repercussão pública também. Qual o problema moral de eu ser como sou, ter o estilo que tenho? O que desabona a minha honradez? A isso não tem resposta, pois sou um homem de bem.

Despeço-me com Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz; cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz; eu sei, eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isto não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita”. Um abraço a todos e me queiram bem, porque não custa nada e só irá fazer bem ao seu coração, mas, aos que não quiserem, paciência, continuarei como eu sou e vocês é que sofrerão o peso de um sentimento não muito cristão (risos).

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