21 de out de 2012

ATRIZ ANA ROSA FALA SOBRE A PERDA DA FILHA

A atriz Ana Rosa
"Algumas vezes eu representei cenas de perdas de entes queridos em novelas. No dia 17 de novembro de 1995, no velório de minha filha Ana Luisa, nascida em São Paulo no dia 10 de dezembro de 1976, eu não queria acreditar que estivesse vivendo aquilo de verdade. No dia seguinte, saí para comprar alguns presentes de Natal. Afinal, meus outros seis filhos ainda estavam ali e precisavam da mãe. Mas eu parecia um zumbi. Numa loja, me senti mal. Tontura, fraqueza, parecia que meu peito iria explodir, que eu não iria aguentar tanta dor. Pedi à vendedora que me deixasse sentar um pouco. Eu estava quase sufocando, as lágrimas queriam saltar de meus olhos. Mas eu não queria chorar. Queria esconder minha dor, fazer de conta que aquilo não havia acontecido comigo. Bebi água, respirei fundo e saí ainda zonza.

Eu sempre acreditei que iria terminar de criar minha filha, como todos os outros. Que iria vê-la formar-se em veterinária. Vê-la casada, com filhos. Achava que teria sempre a Aninha ao meu lado. Um dia, ela me contou que quando era pequena e eu saía pra trabalhar, ela sentia medo de que eu não voltasse. Por isso ficava sempre na porta de casa me olhando até eu sumir de sua vista. Por isso vivia grudada em mim.

Imagino que ela já pressentia ainda criança, que iríamos nos separar cedo. Só que foi ela a ir embora. Foi ela que saiu e não voltou mais. Foi ela que me deixou com a sua saudade. Para amenizar a falta, o vazio que ela deixou, eu ficava horas revendo os vídeos mais recentes com suas imagens. Nossas viagens, festas de aniversários, a formatura da irmã, seu jeitinho lindo tão meu conhecido de sentir vergonha.

Ela com o primeiro e único namorado. O gesto característico de arrumar os cabelos. A sua primeira apresentação de piano. Nesse vídeo então, eu ficava namorando suas mãos de dedos longos e finos. Até hoje eu me lembro de cada detalhe das mãos da Aninha. Assim como me lembro de cada detalhe de seus pés, do seu rosto...

Dali pra frente, o que mais me chocava e surpreendia era que todo o resto do mundo continuava igual. Como se nada tivesse acontecido: o sol nascia e se punha todos os dias, as pessoas andavam pelas ruas. O mesmo movimento, barulho. O mundo continuava a girar. Tudo, tudo igual. Só na minha casa, na minha família, dentro de mim, é que nada mais voltaria a ser como antes. Faltava minha filha, Ana Luisa!

Eu passava, quase diariamente, nos lugares comuns: o colégio Imaculada Conceição, em Botafogo. Cinema, lanchonete, restaurante, o metrô, onde tantas e tantas vezes viajamos juntas. A loja das comprinhas, o shopping, o parquinho, o clube onde fazia natação. A praia de Botafogo onde ela foi atropelada, o hospital Miguel Couto, onde passamos as horas mais angustiosas de nossas vidas.

O cemitério São João Batista, onde repousam seus restos mortais. Até hoje cada um desses lugares me lembra alguma coisa de minha filha. Até hoje guardo as lembranças de seus abraços, seus chamegos, o cheirinho da sua pele, o calor, seu carinho e aconchego. Ana vivia literalmente pendurada em mim. Já grandona, maior que eu, mas sempre como se fosse meu nenê pedindo colo.

Saudade. Saudade. Saudade, minha Aninha.

Não fosse a minha fé e a convicção de que a vida não termina com a morte, não fossem os outros filhos que ainda precisavam de mim, acho que teria pirado. Além da família, o trabalho, a terapia e o estudo da doutrina espírita me deram forças para superar a separação e a falta da Ana Luisa.

Sou e serei eternamente grata ao meu Pai do Céu, porque fui agraciada com muitos sinais de que a separação é apenas temporária. Alguns dias após sua passagem entrei em seu quartinho que ficou inundado pelo cheiro de rosas. Instintivamente fui olhar pela janela. Naturalmente o cheiro não vinha de fora. O perfume intenso era só ali dentro.

Um mês depois, no grupo que eu frequentava no Centro Seara Fraterna, minha filha se manifestou. Ainda meio confusa pela mudança abrupta e repentina, mas já consciente de sua passagem. Naquela noite, o buraco no meu peito que parecia uma ferida sangrando, mudou de aspecto. Continuava a doer, mas a certeza de que minha filha continuava e continua viva em alguma outra dimensão me trouxe uma nova perspectiva. A de que eu poderia chorar pela sua ausência, nunca pelo seu fim.

Dalí pra frente, algumas vezes vi, em outras pressenti, sua essência ao meu lado. No decorrer desses doze anos, recebi, por acréscimo de misericórdia, um bom número de mensagens dela. Uma das últimas foi através de um médium reconhecido, que foi fazer uma palestra num evento que eu apresentava. Sem que eu esperasse ou solicitasse, ele disse que via uma jovem ao meu lado – me descreveu exatamente minha filha - e que ela me apontava para ele dizendo: é esta aqui, ó.

Esta é que é a minha mãe. Quando me sentei, ele disse que ela sentou-se no meu colo. Entre as várias coisas no recado que me mandou, encerrou dizendo que as violetas (enceno a peça “Violetas na janela” há 11 anos) que ela cultiva onde se encontra, não serão colocadas na janela, e sim, serão usadas para fazer um tapete de flores para eu pisar quando chegar lá."

Entrevista e fotos realizada no III Congresso Espírita Encontro com Divaldo, no Centro Espírita Joanna de Ângelis, Av. Gilberto Amado, nº 311, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ. 

7 Comentários:

Anônimo disse...

Pois bem,perdi também um ente querido, a minha mãe no dia 13 de outtubro passado compeltou onze anos de sua morte terrena, agorq que pratico um pouco do espiritismo, sei que ela não esta morta e sim viva em outra dimenssão.

Espero um dia revê-la e abraçá-la novamente como fazíamos antes, sinto muita saudade dela, mas não, não é mais aquela dor sofrida.

Anônimo disse...

ANA ROSA,LI TEU DEPOIMENTO ME EMOCIONEI PORQUE TAMBÉM ESTOU PASSANDO A UM ANO E TRES MESES POR TUDO QUE PASSASTE.TAMBÉM ME CHAMO ANA,ANA CARMEM ,MEU FILHO ANGELO MEU ANJO LINDO SE FOI AOS TRINTA ANOS,INESPERADAMENTE.HOJE MESMO AINDA ME FORTALECENDO ,ME IDETIFIQUEI MUITO CONTIGO.O TEMPO PASSA A SAUDADE É IMENSA E O AMOR É INFINITO...QUE O PAI DE BONDADE INFINITA NOS CONSOLE POIS SE NOSSOS FILHOS FICARAM AQUI NA TERRA POR TÃO POUCO TEMPO É PORQUE TERMIRAM SUA MISSÃO AQUI E HOJE ESTÃO VIVENDO NO MUNDO DO CRIADOR E NÓS NO MUNDO DAS CRIATURAS...E PARA NÓS ELES CONTINUAM SENDO SEMPRE NOSSOS ANJOS LINDOS AMADOS E QUERIDOS E NOS OS AMAREMOS PRA SEMPRE,E LOGO ALI DERREPENTE A GENTE SE ENCONTRA. TEU DEPOIMENTO ME FEZ REFLETIR MELHOR OBRIGADO ANA ROSA.UM BEIJO NO CORAÇÃO FIQUE EM PAZ. OSÓRIO,23 DE OUTUBRO DE 2012. ANA CARMEM. PS .OSÓRIO É UMA CIDADE PEQUENA PRÓXIMA AO MAR NO RIO GRANDE DO SUL.

Anônimo disse...

ao ler estas mensagens,parabenizo voces por toda fé em Deus.tbem meu grande amor se foi,ainda nãofez um ano,e,cada dia que passa o que sinto por ele continua mais forte.espero que logo ele se comunique comigo e confio no Pai que umdia estaremos juntos novamente.se puderem me ajudar agradeço.Deus os abençoe.vivian

Anônimo disse...

Também perdi minha filha com 19 anos e o meu marido em um acidente em 23 de abril e sei extamente o que passou, pois e tudo que estou sentindo neste momento, meu marido pai de outras duas filhas do casamento anterior, mas eu só tinha ela, pois ela sempre dizia que ja dividia o pai com as irmãs e que eu era só dela, e agora que estou sem ela me sinto muito só. Voltei a trabalhar para amenizar um pouco a dor, mas é difícil.

Janaynna Cabral disse...

'Que coisa mais linda de ler, me emocionei!

maria disse...

ana também perdi meu filho de 15 anos e não consigo tirar de mim essa tor e para que essa dor não seja tão insuportável fiquei um pouco passada procuro esquecer tudo que ja passou em minha vida só assim continuo vivendo parecendo que tenho aminésia,as vezes meu marido fala ta parecendo boba,as vezes vi a pessoa ontem e no dia senguimte ja esqueci sua fiseonomia não queria viver assim,queria alguma resposta para tanta pergunta.

zenir flores leal disse...

Oi! Gostaria de receber uma psicografia do meu filho Lucian Flores Leal, nascido em 02 de abril de 1993 e desencarnou em 17 de março de 2012, dois dias antes do meu aniversario. Penso a cada minuto nele, a sua ausência tornou-se insuportável. Sou enfermeira, e ajudo a recuperar tantas pessoas e não tive a oportunidade de fazê-lo com meu filho.Sou casada, tenho um filho de 28 anos do primeiro casamento e com meu marido atual era somente o Lucian. Estamos nos apoiando um no outro, e com ajuda de Deus para suportar tamanha saudade.
Email: zenir@hcb.com.br ou zefloresleal@gmail.com

Desde já agradeço,

Zenir

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