11 de abr de 2015

MEUS DIAS SEM TI (Parte 1)


Pai, eu preciso escrever. A ideia não é original, mas eu sei que, como o grande puxa-saco que tu era dos meus escritos, tu acharia bonito mesmo assim. Eu preciso escrever, pai.

Ontem disse pra uma amiga que, agora, tudo muito é grande. E eu fiquei tão pequenininha, pai. Tão pitititica. A vida perdeu boa parte da graça e eu ganhei um rombo pesado no peito que parece que não vai aliviar nunca mais. Foi meu pai, meu melhor amigo, meu ídolo. No mesmo dia. Isso deveria ser proibido. Por lei, talvez.

Caiu no meu colo a melhor mãe do mundo, a mais amável, com a maior dor de amor que eu já vi. Ela sussurrou “eu te amo” o dia inteiro, pai. O dia to-di-nho. Ela te chamou de meu querido e disse que pobrezinho do meu amor. A dor dela era por ti, e não pela falta que ela já estava sentindo. O amor de vocês, nesses 40 anos, sempre foi assim, né? Um inteiro pelo outro. É o amor mais bonito e mais sincero que eu já vi, pai.

Se eu não estivesse tão triste estaria desesperada, meu velhinho. Mas não tenho forças pra desesperar. Nem posso. A mãe precisa de mim. O mano precisa de mim. Eu preciso deles. É um inferno. Um inferno, pai. E tu, que sempre esteve do meu lado pra dar fim até no menor dos incêndios, não tá aqui pra me ajudar com todo esse fogo.

Ontem foi o pior dia da minha vida, e foi por tua causa. Não por tua culpa, mas por tua causa. E eu sei que só foi tão triste, paizinho, porque todo o resto foi absolutamente lindo. Tu foi muito antes do que eu acho justo; muito, muito antes do que eu gostaria. Mas tudo o que a gente viveu até agora foi de uma boniteza tão completa em si mesma que, eu acho, é isso que me conforta um pouco. Eu não conheço uma relação de pai com filha mais bonita que a nossa. O que a gente construiu juntos tá fora de qualquer gibi (mesmo de todos aqueles que tu me ensinou a ler).

Tá errado, pai. Tá errado. Acho que a pior fase de todas aquelas horrorosas que dizem que passamos quando estamos de luto fui eu que criei: a raiva e a negação juntas. Eu não posso acreditar, meu velhinho, que não vou mais ouvir aquelas cinco batidinhas na porta do quarto (que eu odiava); que não vou mais te ouvir dizer um ôôôôô, filhota pra me repreender quando eu dizia que tu era um velhinho de merda, só pra te encher o saco. Eu não posso acreditar que isso aconteceu comigo. Era pra gente ficar velhinhos escutando vinis, tomando uísque e discutindo os problemas do mundo juntos. É muito, muito injusto, pai. Muito.

(Tô me perdendo nas ideias).

Nada faz sentido, pai. O mundo ficou um lugar um pouco mais triste sem ti. Eu fiquei metade mais triste, pelo menos. Tu era o meu eu fora de mim. A pessoa que eu sabia sempre o que queria fazer, qual comida preferia comer, qual música escutar. E era fácil, porque era só dizer em voz alta o que eu queria. Nós sempre queríamos o mesmo. Sempre andávamos juntos para o mesmo lado. Eu não sei, pai, como vai ser.

Hoje, daqui de cima do meu quarto, de porta fechada, eu ouvi a mãe chorando lá fora. Ela tá em pedaços, pai. Eu também. Eu vou tentar colar os meus e os dela; os do mano também. Talvez eu acabe misturando alguns, colando um daqui do lado de lá mas acho que não tem problema. Eu só queria conseguir parar de chorar antes. No banho, não dá pra saber o que é o que entre lágrima e água. É tudo muito estranho, pai.

Pai, muita gente foi lá nos dar um abraço. Muita. Ouvi de todos os teus ex-colegas de trabalho a mesma palavra: íntegro. Ouvi isso de muitos outros. Dos guris, metade me disse que tu era como um pai; a outra me garantiu que tu não era “o pai do amigo”, tu era o amigo. Tu foi tão fantástico, pai, tão maravilhoso, que não sei se a tua humildade um dia te deu a chance de perceber o quão fora do normal tu era, em todos os sentidos.

Tô escrevendo aqui do teu computador. O novo, “super mega rápido” que tu acabou de comprar. O teu e-mail tá aberto e, do lado dele, a janelinha é a de um link de um vídeo que eu te mandei um pouquinho antes de tu ir embora. Até meu e-mail vai ficar mais sem graça sem as piadas, os enigmas que tu criava pra me mandar e sem os links esdrúxulos que a gente garimpava um para o outro. Tudo tá vazio, pai. Tudo. E uma parte muito imbecil de mim acredita que tu vai voltar.

A noite em que tu te foi estava cravejada de estrelas. Me lembrei de quanto a gente gostava de olhar estrelas juntos. O dia seguinte, aquele, o pior de todos, acabou com um por-do-sol lindo, daqueles que o mano pega o carro e sai correndo para um ponto alto fotografar. Tu é mesmo um filho da puta, pai. Olha que coisa bem bonita.

Muita gente que me disse que tu tá em algum lugar bonito olhando por mim. Eu tenho certeza de que, se existe algo assim, tu tá no mais bonito e mais alto dos lugares… mas tu sabe que eu não acredito — e tudo fica ainda mais difícil. Se tu estiver em algum outro lugar, meu paizinho, me dá força, meu amor. Eu nunca vou conseguir sem ti.

A mãe me disse mil vezes ontem: “se foi o amor da minha vida”. Eu completei todas elas com: da nossa vida. Tu foi, assim, no passado, tão estranho, o maior amor da minha vida, pai. Obrigada por me deixar com tanta, tanta, tanta coisa boa pra lembrar. Com tanto de tão lindo dentro de mim. É por ser tão bonito que dói tanto. Eu sei, pai. Eu sei.

Eu vou seguir te escrevendo, meu amor, não pra criar um mausoléu da minha tristeza, mas porque a minha cabeça só funciona assim — e foi tu que me ensinou o poder e a importância das palavras.

Obrigada por esse imenso vazio no peito, meu pai. Ele só existe porque foi preenchido por um amor ainda maior.

A partir de Medium Brasil. Leia no original
Imagem : freeimages

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