14 de mai de 2015

A ETIQUETA DO VELÓRIO


Duas amigas saem do velório e encostam num jazigo para fumar um cigarro. Um funcionário se aproxima e pede a uma delas: “Licença um bocadinho, dona, pra varrer aqui”. A mulher faz cara de espanto e diz à amiga “olha, ele vê a gente!”. O garoto, desentendido, pergunta “o quê?”. A mulher grita: “E ele também ouve a gente! Faz um favor, meu filho, leva um recado pra minha família lá dentro? Diz que a gente está com muita saudade...” O garoto sai correndo, e as duas rolam de rir.

Não é piada, a história engraçada aconteceu mesmo e, por sorte, longe do velório. Mas ao redor do caixão costuma haver um festival de inconvenientes. Eu mesma, depois de cansar de cumpri-mentar parentes de mortos com “tudo bem”, num tom hesitante entre pergunta e afirmação, resolvi prestar as condolências sem dar um pio. Mas isso também não satisfaz. 

Somos recebidos num velório para homenagear o defunto e confortar os enlutados. Como dar conta desse recado? Seguem aqui recomendações de quem entende do assunto para ajudar a nós, mortais e despreparados, a agir com respeito e afeto aos que estão em sofrimento.

É PIOR QUE A MORTE

•    Soltar pérolas do tipo “você perdeu a mãe, mas não sabe o que é perder um filho” ou “se¬ja forte, foi melhor assim”. Melhor para quem? Esses conselhos não consolam e ainda atra¬palham, porque não permitem que o enlutado expresse sua dor, diz Mayara Bueno Moreira, do Serviço de Apoio às Famílias do Grupo Primaveras, de cemitérios, funerária e crematório.

Fazer selfie. Acredite: há quem faça o clique na porta da sala do velório. E o fim da picada.

Contar piada. Não dê gargalhada quando ouvir uma, e quando chegar a vez de você contar a sua piada, não conte. Funerais costumam reunir pessoas que não se encontram há tempos. Boa parte delas não consegue se conter. Fazem uma roda com bancos na porta do velório, conta Mayara, e liberam a alegria. O pior é que a maioria acredita que está disfarçando, mas eles não enganam nem o morto.

ATITUDES BEM-VINDAS

Seja discreto na roupa. Mas nem tanto ao céu, nem tanto à terra, ou seja, nem black total, porque ninguém mais liga para isso, nem moda balada.

Fale do morto. As pessoas chegam ao velório pi¬sando em ovos, com medo de falar do morto com a família. Do outro lado, os enlutados se ressentem exatamente disso, de que ninguém fala da pessoa que se foi. Portanto, a escritora e editora do blog Morte sem Tabu, Camila Appel, aconselha: conte à família sobre sua relação com a pessoa que morreu, quando a conheceu, em que situação...

A memória é o que o enlutado tem para guardar, por isso, para ele é importante compartilhar essas histórias.

Esta é uma modalidade do receber, talvez a única, em que o anfitrião (a família do falecido) é o mais importante, quem deve receber atenção e tratamento especiais, e não o convidado, como de costume. E merecido, portanto, o empenho em agradá-lo. 

Bell Kranz
 Revista Casa e Comida de maio/2015
Imagem : Freeimages

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